O SIMPÁTICO VELHINHO E SEU BOTE.

                                            O SIMPÁTICO VELHINHO E SEU BOTE

 

Era uma noite quente de verão, em 09/12/2017 e eu vinha da casa de alguns amigos, onde me despedia já que, iria mudar de cidade.

Apesar de quente, aquela noite ficou marcada em minha memória, primeiro pelo calor, segundo por ela estar tão negra como eu jamais vira outra igual.

Cheguei ofegante ao lugar onde se atravessa um rio, esse ponto era o único lugar que tinha para atravessá-lo e eu queria chegar em casa o mais rápido possível.

No lugar em questão, vinha no meio da escuridão apenas uma lâmpada brilhando cortando as trevas e em minha mente veio a história de Dante em que havia um balseiro que carregava os mortos ao seu destino (não sei o porquê de pensar assim naquele momento...)

Quando parou a meu lado um senhorzinho, simpático e me impeliu a subir, subi alegremente dando graças pela velocidade do senhor. Ele era grisalho, mais ou menos uns sessenta anos, utilizava uma camisa listrada e uma bermuda cinza.

Assim que subi no bote perguntei o preço da “viagem”. Minha regra de vida é essa pague o necessário, pechinche ao máximo.

O senhor sorridente me disse que eram onze reais! Quase tomei um choque, pois eu era nativo daquela cidadezinha e sabia que há alguns quilômetros dali (dois para ser exato) uma balsa levava as pessoas sem cobrar! Mesmo assim achei que era seu serviço, e o trabalhador é digno de seu salário, já dizia o Grande livro.

Quando fui lhe entregar o dinheiro (onze reais), ele se recusava a recebe-lo alegando não ter troco. Mas eu insistia em lhe mostrar o dinheiro tentando convencê-lo de que o dinheiro já estava contado, com a quantia certa. Naquele momento achei que ele não soubesse fazer contas então perguntei para ele de quanto ele poderia ter troco, ele me respondeu de vinte. Procurei em meu dinheiro (que estava à vista dele) e não encontrei nenhuma nota de vinte, somente algumas notas de dez, cinquenta e cem. Naquele momento ao notar as notas em minhas mãos, parece que o homem acordou de um transe e repetia que aquele dinheiro lhe servia, este dinheiro realmente me servia: Esse dinheiro me servia, não os onze, ou os vinte..., mas TODO o meu dinheiro!

Notei inclusive que ele já falava como se o dinheiro realmente fosse dele, então o mais rápido que pude, saltei para fora do bote, ele ainda tentou me agarrar, porém eu fui mais rápido, não sei se por ser atleta, ou por ser mais novo, ou ajuda divina, o fato é que consegui escapar de suas mãos...

Coloquei meus pés em terra firme e havia um muro muito alto em minha frente com alguns cacos de vidro colocados em seu topo, quando olhei para ele, o velho gritou que eu não iria conseguir e veio correndo atrás de mim. Lembro-me somente de dizer mentalmente: _você não me conhece.

De um salto já estava no topo, e tentava alcançar um telhado vizinho ao muro, o idoso vendo eu perseverar em meus planos começou a jogar pedras tentando me derrubar. Eu resolvi retribuir sua ideia jogando as telhas que estavam a meu alcance.

Nesse momento vejo um homem correndo ao seu encontro e achei que estava salvo, porém o homem o ajudava!

Notando que minhas forças estavam acabando, comecei a lanças as telhas no vidro da casa, para chamar a atenção de alguém. Com o barulho notei que uma luz acendeu na casa, e nesse exato momento pude ouvir o velho sussurrar a seu colega: Atira.

Nesse instante esquivei o máximo que pude. Ouvi as balas passando ao meu redor e seu zumbido em meus ouvidos.

Não acreditei que uma vida de cuidados que eu tinha, com meu corpo e minha saúde iria terminar tão rápido e toscamente.

Ouvi após esse pensamento, uma janela se abrir e apenas implorei como nunca havia feito em minha vida: Me ajude, estão querendo me matar!

O jovem notando meu pavor me ajudou o mais rápido possível a subir.

Me via deitado no chão, de um desconhecido, acuado como um animal perseguido por seu predador, totalmente com medo; minutos (horas percebi depois) se passaram até que eu pude falar alguma coisa. Pedi que o garoto telefonasse para um amigo meu chamado DemÍ e que era policial muito leal e prestativo. Fiquei com medo de o velhinho ser conhecido e estimado na cidade, o que poderia me trazer sérios problemas.

Após a chegada da polícia, contei minha versão a eles.

 O velhinho foi preso juntamente com seu colega.

Ouvi rumores que eles confessaram ter matado mais de trinta pessoas, todas afogadas.

Lembrei que eu poderia ser uma delas...

Apesar de ter passado por toda essa dificuldade, aprendi algo muito valioso:

Não confie nunca em um sorriso simpático de um desconhecido, seja ele quem for, pois a morte está em todo lugar, e ela não tem rosto.

FIM

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