No momento existem 11469 artigos de qualidade escritos por 2541 autores
|
Em dias de apoteose para a consciência negra, com Barack Obama angariando a presidência dos EUA, o mundo vem sendo convidado a debater e criar esperanças pela queda do racismo branco contra afrodescendentes. Bem que esse êxito do havaiano poderia significar um sinal dessa enormemente desejável tendência no mundo, mas, pelo menos aqui no Brasil, se andarmos um pouco pelas ruas, não é isso que se percebe, vide o meu testemunho.
Em algumas andanças recentes na orla de Boa Viagem, aqui em Recife, uma realidade me deixou um tanto atormentado em relação ao nosso forte racismo social. Bem que eu tentava em meus desejos dar àquilo um caráter de distribuição aleatória, mas não deu. Ficou óbvio que a maioria dos alugadores de cadeiras e outros trabalhadores de baixa renda ali presentes tinha a pele de marrom a preta, enquanto os passeantes que se vestiam mais “ricamente” eram brancos. Do mesmo jeito me sinto quando, pelas ruas do mesmo bairro, percebo que tão poucos limpadores de pára-brisas têm pele branquinha, em contraste praticamente grosseiro com as garotas bem vestidas que andam por ali. Claro que isso não era/é um detalhe generalizante, seria burrice dizer que sim, visto que muitos morenos e negros que avistei nas minhas caminhadas ostentavam uma aparência de conforto sócio-econômico e alguns brancos estavam de fato em ocupações pobres.
Outro fator testemunhado foi que, em minha turma concluinte de Gestão Ambiental, apenas cinco entre 32 colegas tinham pele escura, detalhe que efervesce os defensores das cotas. Nos corredores do Cefet, a turma mais escura de pele se concentrava nos cursos de mecânica, edificações e outros técnicos, de nível médio, enquanto rareava mais nos tecnológicos, de nível superior.
Detalhes de segregação social entre a maioria dos brancos e a dos negros no Brasil como esses podem ser encontrados aos montes por aí, e muito freqüentemente geram opiniões absurdas como “nêgo é pobre porque é nêgo mesmo”, as quais põem em séria dúvida a crença de que “o brasileiro não é racista”. Já-já a idéia das cotas reaparece na roda de conversa, e então me obrigo a dizer: ah se uma cota resolvesse tudo em vez de apenas dar a impressão forçada de equalização sócio-racial... Imaginem vocês o poderoso efeito de percepção de estabelecer que 20% dos apartamentos de edifícios de classe média-alta fossem reservados para famílias ou indivíduos de pele escura. Aí todo mundo iria dizer, na ilusão, “essa medida é ótima!”.
Há-se de perceber que o racismo social no país vai muito além de cotas. É, como já se diz muito, um processo histórico de longas datas que medidas paliativas como destinar tal porcentagem de vagas em alguma oportunidade estão bem longe de esboçar um conserto – mas apenas forçam uma aparência de progresso no ajuste das diferenças – e que requer ainda muito debate e quebra de cuca para elaboração de políticas. Não há uma fórmula mágica para balancear o contraste entre a notada maioria branca socialmente favorecida e a negra em desvantagem, mas algo que daria bem certo, embora pareça utopia no Brasil, seria acolher e comprometer-se politicamente com as necessidades de todos aqueles das comunidades humildes. Isso favoreceria e elevaria sabe quem? Aquela maioria negra cujas carências atormentam aqueles que, como eu, desejariam que a distribuição sócio-racial fosse meramente aleatória. Aí sim que o nosso racismo social, como o fato de a maioria dos trabalhadores informais das praias ter pele muito escura, seria abrandado e a distribuição sócio-racial da população estaria mais próxima da igualdade.
Sobre o Autor
É escritor independente de artigos, apaixonado por sociologia e dono do blog Arauto da Consciência. Escreve artigos desde setembro de 2007.
|
Comentários (1)
porMaiko Menassa, novembro 18, 2008
O problema do preconceito racial e desigualdade no Brasil não pode ser resolvido a curto prazo, isso porque o próprio racismo e as políticas de desigualdade social foram contruídas a longo prazo no nosso país. Acredito que medidas, como a política de cotas, nada mais são do que medidas imediatistas de fachada. O problema é de ordem histórica. O Brasil, em seus 500 anos de "civilização", manteve pessoas negras em regime de escravidão por 388 anos. Se bem que nos últimos anos de escravidão também manteve pardos, mulatos etc. O problema já não era a cor e sim o sistema político que nascia e que segregaria os pretos, que agora mais se caracterizavam como pobres, já que estavam miscigenados. O capitalismo industrial europeu necessitava de mercado consumidor. O liberalismo era lei no século XIX. Escravos não eram consumidores de produtos industrializados. Libertaram os escravos, que nem pretos direito eram mais. Livres, mas sem dinheiro, saíram da cidade plana e foram pros morros. Fundaram as favelas. Existem poucos favelados brancos e poucos negros, mas muitos coloridos (cafusos,mamelucos,até caboclos), mas todos tem uma coisa em comum: são pobres. Agora cheguei no ponto: o problema racial apenas encobre o verdadeiro problema que é sócio-político-histórico-cultural. Eu tenho diversos alunos pardos ( que se declaram negros, mas que tem uma avó branca, uma mãe oriental, uma tia roxa). Enfim, é difícil ver um negro "puro sangue" no Brasil. Assim como é difícil ver um venezuelano totalmente índio, vermelho mesmo.Se os negros brasileiros continuassem se clareando, produzindo uma população massissamente branca, ainda assim continuariam pobres, dada a origem do problema. Por fim, o que quero dizer é que negros e brancos se apegam na questão étnica para justificar problemas sociais de ordem histórica e de difícil solução.
maiko.menassa@yahoo.com.br
Resultados 1 - 1 de 1
 |
Artigos licenciados sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, publicar em jornais, revistas, websites e outros meios de comunicação desde que seja dado crédito ao autor original (cite as informações Sobre o Autor e o link para a fonte do artigo: Fonte: www.artigos.com) |
|
|
|