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Tuesday, March 11 A importância do planejamentoDesde que vim viver aqui em Berlim, muitas coisas me surpreenderam diariamente. Algumas positivamente, outras de forma negativa. As diferenças sao muitas, mas decidi dar tempo ao tempo até entender adequadamente o mundo em que vivo, antes de voltar e escrever, para não cometer o erro de me apressar a dar uma opinião e depois descobrir que não havia entendido a situação.
A vivência nesta cidade cheia de história, que há menos de 20 anos ainda estava dividida e era o representante mais agudo da divisão ideologica no planeta, proporciona um grande aprendizado diariamente, ao conversar com sobreviventes da Segunda Guerra, dos dois lados do muro, da repressão na Alemanha comunista e de tantos outros fatos do rico passado da Capital. No entanto o presente, resultado de um passado tão doloroso, é o que mais me chama a atenção.
Grande parte de Berlim foi destruída na Segunda Guerra e grandes espaços urbanos foram reduzidos a ruínas. Ha que diga até que não há morros naturais na cidade, senão construção sobre entulhos de guerra. Em cima desses grandes vazios, foi erigida uma cidade muito bem planejada, com largas avenidas, muitos parques e canteiros verdes e um transporte público que atende muito bem às necessidades da população. Berlim está preparada para abrigar 1,5 milhão de habitantes acima do que tem hoje.
Porém o presente segue sempre o mesmo caminho e, por isso, Berlim me surpreende. Muitas vezes, anunciam um novo projeto de expansão do metrô, uma nova avenida, uma nova urbanização ou qualquer outra grande obra e penso: para quê? Não é necessário. O atual modelo da cidade é mais do que suficiente. Pois é justamente por esse motivo que a cidade está sempre à frente de suas necessidades. O planejamento ocorre sobre o que será necessário.
Comparo então a política de remendos que se conhece no Brasil. Uma situação é empurrada com a barriga até que exija irremediavelmente uma soluçao. Entao posterga-se a solução. Iniciam-se as discussões para sanar o problema. Políticos prometem a solução para seu mandato. Terminam o mandato e o problema volta a pauta. Quando se começa finalmente a operar, a solução já não cobre nem de longe o problema e dá margem para novas acusações e promessas no período eleitoral.
Porto Alegre sofreu durante anos com alagamentos. Quando a Avenida Goethe já estava quase entrando para os atlas como rio e o “Lago da Goethe” já era candidato a sediar o próximo campeonato mundial de jet-ski, começaram uma obra que, terminada, só aliviava o problema. Consertos em estradas só são providenciados quandojá é possível fazer alpinismo dentro dos buracos, esquecendo-se que o simples fato de o asfalto não estar impecável já é uma afronta aos motoristas. O trânsito precisa chegar sempre a um ponto absolutamente caótico para que se comecem as obras de uma nova avenida ou de um corredor de ônibus que, quando o projeto vai para o papel, já não atende mais às demandas reais.
posted by: fsp | 07:21 | comments Thursday, November 30 O que é ser gaúcho?Esqueçam idealizações imbecis ou fantasias de folcoristas. Tratarei do gaúcho em sua essência, não dos aspectos que podem simplesmente ser adquiridos externamente. Logo, ser gaúcho não é (só) vestir pilchas e dançar chula. O gaúcho é uma figura cultural, um povo, um conglomerado de características surgidas na vida no Um gaúcho legítimo não precisa ser nascido nos pampas argentino, uruguaio ou rio-grandense. Não precisa vestir bombachas, tomar chimarrão nem falar “tchê”. Igualmente, não é apenas engolindo água com erva-mate, dançando vaneira e cumprimentando Aqui na Alemanha, há um sem-número de alemães, filhos de imigrantes turcos, que todavia agem Lendo uma reportagem de uma revista de turismo alemã sobre Argentina e Chile, com várias páginas dedicadas a explicar o “gaucho” argentino, senti a necessidade de escrever este texto. Substituíssemos as palavras espanholas (peón, patrón, gaucho, estancia) por portuguesas, pensaríamos tratar a matéria sobre o É então que se percebe que a nossa pátria é o O gaúcho autêntico – não importa onde tenha nascido – é um bom anfitrião, que trata seu hóspede com toda regalia; é simples de modos, mas reto de caráter; é humilde em ambições, mas exagerado em ideais e paixões; é um respeitador fiel da hierarquia funcional e o primeiro a proclamar a igualdade, quando todos sentam juntos para matear; é um batalhador, que não desiste nunca; é um rebelde, que nunca aceita ser dominado; é um bravo, que não foge de uma luta por ser difícil. O gaúcho autêntico é um verdadeiro tradicionalista. Não porque aprende coisas no CTG, mas porque carrega em si esses valores e não vê alternativa possível de vida digna fora deles. Não é possível ser gaúcho só no fim-de-semana. Então, quem quiser falar em preservar a tradição, que comece por aderir completamente aos preceitos aí em cima. Depois, pense em pilcha, danças ou expressões típicas.
Publicado no Jornal Agora (Rio Grande-RS) posted by: fsp | 22:46 | comments Tuesday, October 03 E se eu estiver errado?O ser humano é e será eternamente ignorante. A quantidade de coisas que não sabemos e não entendemos é interminável e infinitamente superior às que sabemos e conhecemos. Isso é um fato. Pois foi justamente a tomada de consciência dessa característica humana que me levou, há anos, a deixar de ser um militante socialista e seguir o rumo que me trouxe à atualidade. Em geral, esquerdistas têm uma compreensão de mundo de que só eles desejam o bem e o melhor para todos e seu caminho é o único que pode conduzir a isso. As ideologias de direita não visariam a um mundo melhor, ao bem comum ou a qualquer coisa boa. Há os bons, bem intencionados e preocupados com os outros (esquerda) e há os maus, insensíveis e que só pensam em si mesmos. Durante algum tempo, compartilhei de tal visão. Os escritos socialistas eram incontestáveis. Tinha convicção disso e esse era meu principal erro. Até então, nunca tinha cogitado a possibilidade de estar errado. Até então, se Saddam era um ditador facínora, mas enfrentava os Estados Unidos, merecia crédito de certa forma. Cuba atentar contra os direitos humanos e contra as liberdades individuais era um preço baixo a ser pago em nome de um bem maior, que era a resistência ao capitalismo. Pois, tão logo me fiz a pergunta derradeira (“e se eu estiver errado?”), dei-me conta de que concessões de princípios só são feitas em nome da convicção cega. E percebi que concessões desse tipo eram feitas o tempo todo, em nome dos nobres ideais esquerdistas. E se eu estivesse errado? Não poderia saber. Somos eternamente ignorantes. O mundo inteiro tinha convicção em cima do absolutismo, do feudalismo e alguns países não tinham dúvidas de que o nazi-fascismo era o que de melhor a sociedade havia produzido. O Universo girou em torno da Terra, por anos, em nossa ignorância. Se eu estivesse errado, teria apoiado milhões de homicídios na União Soviética em nome de uma convicção equivocada; teria achado tolerável que curdos fossem atacados com armas químicas e biológicas por um louco que enfrentava o mesmo inimigo que eu; teria apoiado terroristas que ceifam vidas inocentes, como anarquistas imbecis que diziam que “ninguém é inocente”. Enfim, reconhecer nossa ignorância é o maior risco à convicção cega. Durante as cruzadas, nenhum papa cogitou a possibilidade de estar cometendo um ato criminoso perante Deus ao exterminar milhares de muçulmanos. Eles eram contra Deus. Bin Laden nunca imaginou que pudesse estar errado ao matar cristãos (ou mesmo ateus, agnósticos e outros) a esmo. Eles eram infiéis. Jovens que apóiam o extermínio dos burgueses (como se soubessem definir isso) nunca tentaram ver se essa classe não faz um imenso bem para o crescimento de qualquer país. E se eles estiverem errados? Hoje, rejeito os ideais ditos de esquerda (no Brasil) e abomino os delírios socialistas. Mas, e se eu estiver errado? Se estiver errado, tenho consciência de que defendo o direito de que divulguem suas idéias criminosas até o limite da democracia. Não podemos rejeitar a possibilidade de estarmos errados nunca. Nem de os outros estarem certos.
Publicado nos Jornais Agora (Rio Grande-RS), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul-RS) e Diário Popular (Pelotas-RS) posted by: fsp | 09:23 | comments (1) Tuesday, September 19 A Inquisição contra a dita PedofiliaFaz pouco, a Associação dos Psiquiatras dos Estados Unidos despertou debate interessantíssimo: é possível considerar a pedofilia como patologia baseado em juízo cultural? Antes que se prossiga com este texto, convém esclarecer que a pedofilia (atração por crianças) não é um crime, mas um distúrbio (se assim a tratarmos) psicológico. Os crimes relacionados a ela são a corrupção de menores e o atentado violento ao pudor. O Estatuto da Criança e do Adolescente define como “criança”, o menor de até 12 anos. Após, é “adolescente”. Com isso temos a caracterização de a quem tange a pedofilia. No entanto, os delitos que a ela se atribuem podem ocorrer acima dessa idade. Para a depuração correta da idéia, convém despir-se do preconceito burro. Nesta atual cruzada contra a “pedofilia”, passou-se a perseguir pessoas como à época da inquisição, porque começamos a acreditar em novas verdades, que se tornaram rapidamente dogmas. Passamos a querer “proteger” todos os menores de idade de monstros que “abusam” de sua inocência. Esquecemos, porém, que isso é uma visão fantasiosa e auto-induzida da realidade. Há 50 anos, uma jovem de 18 anos brincava de bonecas e, muitas vezes, ainda nem tinha menstruado. Na mesma época, não era nenhum escândalo o casamento com uma mulher de 12 anos. Na Grécia Antiga, eram comuns as relações pedófilas homossexuais, inclusive entre os grandes sábios que nos legaram a base de nossa civilização. Em diversas culturas, a jovem é entregue ao casamento após a menarca. Nos tempos atuais, ao contrário do que a sociedade neopuritana tenta fazer crer, os jovens amadurecem cada vez mais cedo (inclusive a puberdade adiantou-se em vários anos) e têm acesso vasto a informações sobre sexo. Poucos são os adolescentes que, aos 14 anos, não tiveram nenhuma experiência sexual. Em lugares do Brasil, é comum que uma pessoa com 12 anos esteja em seu segundo filho (a prova da natureza de que não são mais crianças) ou segundo casamento. E me falam em “pedofilia” com mulheres de 16, 17 anos? É difícil de acreditar que um adulto, que não tenha algum retardo mental, possa ter um relacionamento maduro com um adolescente de 13 anos. No entanto, a atração física pode dar-se, tranqüilamente, por pessoas de menos idade e físico bem desenvolvido. Não é possível censurar eticamente quem namore uma “gostosa burra” nem uma “piá gostosa”. Pode não ser meu gosto, mas não é imoral. E com esse absurdo inquisitório, esse moralismo de boteco, equiparam preferência pessoal (pessoas mais novas) aos verdadeiros criminosos, que estupram menores e maiores de idade. Dão igual valor ao pedófilo criminoso, que abusa de bebês, e ao rapaz de 20 anos, que assinou o já povoado livro de visitas de uma guria de 13. Queimem meu artigo, joguem os “pedófilos” na fogueira. Só não queiram que eu compartilhe desse fanatismo, finja que não conheço história e que não conheço os adolescentes de hoje. posted by: fsp | 10:16 | comments Friday, September 15 A língua nova e a hipocrisiaPasseando pela página do jornal argentino El Clarín na internet, tive a felicidade de encontrar um especial sobre a participação do escritor Jorge Luis Borges no periódico, bem como suas vida e obra. Dentre os materiais acessíveis, pincei intrigante e revelador texto do ano de 1984, em que esmiúça a hipocrisia escondida atrás de eufemismos. Segundo Borges, o orgulho exacerbado sobre a imagem argentina seria o motivo do abuso no emprego de termos suavizados para coisas ruins e pomposos para coisas triviais. Ao perceber que quase tudo ao que o escritor se refere é de uso corrente no Brasil, só posso crer que este país padece do mesmo mal que os hermanos ou que o beletrista argentino se equivocou. Tomarei como desnecessária a discussão sobre o ego brasileiro e preferirei ater-me às nuanças de interpretação a partir dos usos da linguagem para ocultarem um mundo. Na época em que o artigo foi escrito, ainda não existia a praga do politicamente correto. Borges mostrava insatisfação em ser cego e ser chamado de “no vidente” e, provavelmente, teria ido à loucura se tivesse chegado a viver em nosso tempo, onde fomos inundados por modismos do que “se deve falar” e que nos obrigaram a aprender uma língua totalmente nova. Um negro, um gay, um cego e a velhice sempre foram entendidos como um indivíduo de cor preta, uma pessoa que se relaciona com outras do mesmo sexo, a impossibilidade de enxergar e muitos anos de vida. De um dia para o outro, palavras corriqueiras tornaram-se palavrão e foram substituídas por termos elegantes como afro-descendente, homossexual, deficiente visual e terceira idade. Curiosamente, desde que essa regra entrou oficiosamente em vigor, a fala tornou-se latifúndio para o exercício da hipocrisia e do preconceito travestido. Dizer que alguém fez uma “afro-descendentice”, que tal comportamento é uma “homossexualidade” e que a “terceira idade só atrapalha” não passou a ter um caráter menos preconceituoso, nem se despiu do que esse tipo de visão carrega, que é atribuir previamente características indesejáveis a um ser humano, baseado em sua aparência ou comportamento social. A defesa fragorosa da prevalência desse falar em nossa sociedade como uma vitória dos oprimidos, além de demagógica, é hipócrita. Nenhum desses grupos humanos recebeu mais direitos ou saiu da opressão pelo simples fato de novas palavras serem pronunciadas com o mesmo sorriso irônico no rosto. Igualmente, uma candidatura custeada com caixa dois (recurso não contabilizado), invasão militar de refinarias brasileiras (exercício da soberania boliviana) ou destruir o congresso (chamar a atenção da sociedade) são infinitamente mais repreensíveis que falar português sem rodeios.
Publicado nos Jornais Agora (Rio Grande-RS) e A Platéia (Sant' Anna do Livramento-RS) posted by: fsp | 18:25 | comments Thursday, September 14 Trânsito: Reflexo da SociedadeO trânsito é o indicador mais perfeito de como anda a sociedade brasileira. Reflete a violência, o desprezo pelas leis, arrogância néscia, o desrespeito para com o próximo, o egoísmo e o “jeitinho brasileiro”. Nada poderia demonstrar com mais exatidão quais são os defeitos principais desse povo e apontar melhor caminho para corrigi-lo. A cada ano, os números relativos a mortes em incidentes (muitos chamados erroneamente de “acidentes”) de trânsito tornam-se mais assustadores. Cerca de 500 mil mortos por ano é mais que qualquer guerra atualmente em disputa no Mundo. Poucos países vivenciam a experiência de produzirem centenas de milhares de novos assassinos anualmente. Quanto mais, acharem isso normal. O brasileiro, tão criativo, orgulhoso de seu “jeitinho” que arruma soluções para tudo não parece perceber que, contra regras não deve haver jeitinho. Não há lugar para estacionar, o brasileiro criativo estaciona em local proibido. O brasileiro criativo está com pressa, mas o sinal está fechado, o imagina que o vermelho significa “siga em frente”. O egoísmo, personalizado no “jeitinho”, consiste em não reconhecer que há diversos outros semelhantes que compartilham das vias públicas e mereceriam igual respeito. Ao pensar que sua pressa ou sua comodidade são prioritárias, torna-se vítima igualmente de outros que assim pensam. Todos somos reféns dos motoristas embriagados, imprudentes, que nos “cortam” ou que estacionam em frente a nossas garagens. Fora a violência dos próprios incidentes, quantos crimes não começaram com discussões no trânsito? Tantos quantos começaram em brigas de vizinhos, brigas em boate e situações banais, que refletem a índole agressiva de um povo. Volta e meia, constato que, sempre na mesma esquina, um ônibus tenta fazer a conversão e um condutor, desrespeitando a marcação sob a sinaleira, avança e impede a curva do veículo maior. Se aquela sinalização está lá e todos os dias o coletivo tem dificuldades em dobrar, prova-se que a existência não só dela como de todas as medidas de prevenção têm um motivo de existir. É muita pretensão imaginar que somos mais “espertos” que os milhares de anos de civilização que construíram cada regra com uma finalidade. Igualmente, costuma crer o brasileiro, uma lei é facultativa quando não há alguém próximo para fiscalizar seu cumprimento. Sempre que não houver um agente da lei por perto, haverá a tendência de que absurdos ocorram, pois o respeito ao próximo é substituído pelo temor à multa. Como resolver isso? Matar todos os motoristas imprudentes antes que matem outros? Não dá. Gastar fortunas enfiando agentes de trânsito em cada esquina 24 horas por dia? Muito caro. Quintuplicar as multas? Talvez. Educar desde pequeno, como uma filosofia para todas as áreas da vida? Com certeza
posted by: fsp | 12:34 | comments Tuesday, September 12 O Nazimo tem Raízes SocialistasPublico, com autorização do autor, minha tradução do ensaio do pensador italiano Dario Antiseri, cujo título original era "Il nazismo ha radici socialiste". Quem desejar receber o texto (também o original) em arquivo .doc, me mande um e-mail para "felipe_simoes_pires(arroba)yahoo.com.br".
1. Carl Menger e "o pressentimento da grande tragédia" Foi durante o feriado de Natal de 1903 que Ludwig von Mises leu pela primeira vez Grundsatze der Volkswirtschaftslehre (Fundamentos de Economia Política) de Menger. E foi justamente graças a esse livro que Mises decidiu tornar-se economista. Em todo caso, exatamente em 1903 Menger abandonou, antes do tempo, o lecionar. Mises encontrou-o pessoalmente só quatro anos depois. "Sempre me intrigou — afirma Mises em sua Autobiografia escrita em 1940 — por que esse homem não utilizou melhor suas últimas décadas de vida. Que ainda era capaz de dar esplêndidas contribuições demonstrou no artigo Geld (dinheiro) que escreveu para o "Handwörterbuch der Staatswissenschaften" (Dicionário de Bolso da Ciência do Estado - Mises 1996, p. 63). Pois bem, Mises pensa possuir a solução do problema. "Creio (...) saber – escreve – o que o desencorajou e o reduziu precocemente ao silêncio. Sua mente lucidíssima tinha intuído em que caminho estava desembocando o desenvolvimento da Europa e do mundo inteiro. Já via essas soberbas civilizações escorrendo precipitosamente ao abismo. Menger pressentiu todos os horrores que hoje estamos vivendo. Ele sabia quais conseqüências o mundo haveria de pagar pelo abandono do liberalismo e do capitalismo e enquanto estava em seu poder contrastar com essas tendências o fez. Suas Untersuchungen über die Methode der Socialwissenschaften (Pesquisas sobre o Método das Ciências Sociais) foram escritas também em polêmica contra todas as correntes ideológicas que, das cátedras do grande Reich prussiano, intoxicavam o mundo. Mas sabia que a sua era uma batalha inútil e desesperada e isso fê-lo cair em um tétrico pessimismo que paralisou suas forças e que transmitiu também a seu jovem aliado e amigo, o arqueduque hereditário Rodolfo de Asburgo. O arqueduque certamente não se suicidou por causa de uma mulher, mas porque se desesperava ante o futuro de seu império e da civilização européia. Levou consigo aquela jovem mulher – que também desejava morrer –, mas a morte não foi por sua causa" (Mises 1996, pp. 63-64). 2. Ludwig von Mises, 1927: "A nossa civilização está fadada a acabar" O pressentimento da tragédia que atacaria a Europa, e que virou angústia, Carl Menger transforma em profecia em seu seguidor Ludwig von Mises. Como lembra Fritz Machlup, “trata-se da profecia sobre o fim da liberdade na Europa Central e sobre a impossibilidade, para nós, de continuarmos vivendo na Áustria” (Machlup 1975, p. 8). 3. O espírito "anticapitalístico" e "socialístico" do partido nacional-socialista "A filosofia dos nazistas, ou seja, do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, é a mais pura e mais consistente manifestação do espírito anticapitalístico e socialístico de nossa época" (Mises 1990, p. 633). Isso escreveu Mises em Caos Planificado. Gemeinnutz geht vor Eigennutz (O benefício comum vem antes do benefício privado): neste slogan concentrava-se a "sabedoria econômica" dos nazistas – uma idéia que "implica que a economia de lucro prejudicaria os interesses vitais da enorme maioria do povo e que é sagrado dever do Governo Popular evitar a formação de lucro por meio do controle público da produção e da distribuição" (Mises 1990, p. 633). Na árvore genealógica dos pais do nazismo, Mises vê "doutrinas de latinos como Sismondi e Georges Sorel e de anglo-saxões como Carlyle, Ruskin e Houston Stewart Chamberlain (...) Também o traço ideológico mais conhecido do nazismo, a fábula da superioridade da raça ariana, não era de origem germânica; seu autor foi um francês, Gobineau. Alemães de ascendência judaica como Lassalle, Lasson, Stahl e Walter Rathenau deram às doutrinas essenciais do nazismo uma contribuição maior que a de nomes como Sombart, Spann e Ferdinand Fried” (Mises 1990, p. 633). Socialista é – segundo Mises – toda sociedade que haja abolido a propriedade privada dos meios de produção. E tal sociedade – seja ela nazista, fascista ou comunista – juntamente com a abolição da propriedade privada dos meios de produção, elimina toda liberdade política e aniquila os direitos humanos.
Aponta Mises em A Ação Humana: “Não apenas a liberdade econômica que a economia de mercado concede a seus membros é retirada. Todas as liberdades políticas e carta de direitos tornam-se ilusão. Habeas corpus e processos ante a justiça são uma vergonha se, sob o pretexto da oportunidade econômica, a autoridade tem poder de enviar todo cidadão indesejado para o Ártico ou a um deserto e submetê-lo a “trabalhos forçados” em vida. A liberdade de imprensa é uma pura ilusão se a autoridade controla todos os ofícios de prensa e as gráficas. E assim é com todos os outros direitos do homem" (Mises 1959, p. 277). A realidade é que a substituição da economia de mercado pela economia planificada "tolhe todas as liberdades e deixa ao indivíduo unicamente o direito de obedecer” (Mises 1959, p. 277). 4. Os "socialistas da cátedra" foram precursores das duas guerras mundiais O "socialismo" é um sistema social baseado na propriedade pública dos meios de produção. Em tal sistema, "todos os recursos materiais são empregadores" (Mises 1994, p. 78); implica – como já se viu, a liberdade de imprensa, na qual as gráficas e tipografias pertencem ao Estado, é simplesmente uma ilusão. Como é uma ilusão a liberdade de associação e também de religião, na qual todos os edifícios, inclusive igrejas, são propriedades do Estado. Um ingrediente "especificamente alemão" no nazismo foi – precisa Mises sempre no Caos Planificado - "a luta pela conquista do Lebensraum (espaço vital)” (Mises 1990, p. 635).[[1]] E em outras "o plano nazista era mais extenso e por isso mais pernicioso que o dos marxistas. Seu objetivo era a abolição do laissez-faire não somente na produção de bens materiais, como também na produção do homem. O Führer não era somente o diretor-geral de todas as indústrias; ele era igualmente o diretor da "empresa de reprodução" responsável pela criação dos homens superiores e a eliminação da raça inferior” (Mises 1990, p. 635). Com tudo isso, em todo caso, não se devem esquecer – adverte Mises – aquelas que são as raízes socialistas do nazismo. E, de fato, “por mais de setenta anos, os professores alemães de Ciência Política, História, Direito, Geografia e Filosofia inculcaram com grande zelo em seus alunos um ódio histérico no confronto com o capitalismo e pregaram a guerra de «liberação» contra o Ocidente capitalístico. Na Alemanha os “socialistas da cátedra”, muito admirados em todos os países estrangeiros, foram os precursores das duas guerras mundiais. 5. Lênin, Trotski e Stalin: três mestres dos nazistas Em uma perspectiva genérica, bem se compreende que Hitler – na opinião de Mises – "não foi o fundador do nazismo; dele foi o produto" (Mises 1990, p. 634). Hitler era um gângster sádico (Mises 1990, pp. 634-635),[[3]] um obcecado em busca de megalomania. E suas presunção e megalomania passam a ser acariciadas e exaltadas pelo grupo dos intelectuais. Eis, então – e este é o ponto conclusivo da argumentação de Mises –, que “quando as políticas socialistas de extermínio em massa de todos os dissidentes e de violência impiedosa perderam a inibição contra o assassínio em larga escala, que ainda preocupava alguns alemães, ninguém mais poderia, ao longo dela, impedir o avanço do nazismo. Os nazistas adotaram rapidamente os métodos soviéticos. Importaram-nos da Rússia; o sistema do partido único e supremo poder desse partido na vida política; a posição predominante atribuída à polícia secreta; os campos de concentração; o assassinato e aprisionamento de todos os opositores; o extermínio da família dos suspeitos e exilados; os métodos de propaganda; a organização de partidos afiliados no exterior e seu emprego na luta contra os governos locais e em espionagem e sabotagem; o uso do serviço diplomático e consular para fomentar a revolução; e muitas outras coisas ainda. Em nenhuma outra parte, Lênin, Trotski e Stalin tiveram discípulos tão dóceis como os nazistas” (Mises 1990, p. 634).[[5]] 6. O nacional-socialismo, na Alemanha, foi o êxito da ausência de uma burguesia forte Das raízes socialistas do nazismo Hayek fala no décimo segundo capítulo de O Caminho da Escravidão: “É um erro – escreve – considerar o nacional-socialismo como uma mera revolta contra a razão, um movimento irracional sem base intelectual" (Hayek 1995, p. 227). E, para explicitar, no processo evolutivo que leva ao nazismo, à presença dos pensadores alemães, Hayek vê acreditados pensadores não alemães como Thomas Carlyle e Houston Stewart Chamberlain, Auguste Comte e George Sorel (ivi, p. 227). Abraçados a uma minoria reacionária, as idéias desses pensadores conseguiram, por fim, conquistar o consenso da grande maioria dos alemães e, substancialmente, de todos os jovens. Como foi possível tudo isso? Isso foi possível não porque a burguesia facilitou a ascensão do nazismo, mas pela razão inversa: pela ausência na Alemanha de uma burguesia forte (ivi, p. 223). "Foi a união das forças anticapitalísticas de direita e de esquerda, a fusão entre socialismo radical e conservador, que limpou o caminho da Alemanha de qualquer coisa que fosse liberal" (ivi, p. 223). De tal modo na Alemanha se fez a conexão entre socialismo e nacionalismo. "É significativo, aponta Hayek, que as mais importantes referências do nacional-socialismo — Fichte, Rodbertus e Lassalle — são ao mesmo tempo reconhecidos como os pais do socialismo" (ivi, p. 224). 7. J. Plenge, P. Lensch, O. Spengler e A. Möller van der Bruck: se alinham com os "heróis" alemães contra os "mercadores" ingleses O estouro da Primeira Guerra Mundial, com a histeria bélica que o caracterizou, marcou depois o início do desenvolvimento do nacional-socialismo – um desenvolvimento ao qual deram apoio vários velhos socialistas como, por exemplo, Werner Sombart. Em 1909 – fato que já vimos – Sombart afirmava orgulhosamente ter dedicado grande parte de sua vida a combater pelas idéias de Karl Marx (Sombart, 1909). De 1915, no entanto, é a sua famosa ópera Handler und Helden (Marcadores e Heróis) (Sombart, 1915), onde o velho socialista Sombart “saúda a «guerra alemã» como o inevitável conflito entre a civilização comercial da Inglaterra e a cultura heróica da Alemanha. É sem limites o seu desprezo no confronto das visões «comerciais» dos ingleses que teriam perdido todo instinto guerreiro” (Hayek 1995, p. 225). E ainda: “Sombart sabia que os alemães são desprezados pelos outros povos, porque consideram a guerra sagrada: mas ele não se abalava. Considerar a guerra como uma coisa não humana e insensata é fruto das idéias comerciais. Há uma vida mais nobre que a dos indivíduos, a vida do povo e do Estado; e é educado por parte dos indivíduos sacrificarem suas próprias vidas pelas vidas mais nobres". E, depois de Sombart, o professor Johann Plenge – uma autoridade nos estudos sobre Marx (Plenge, 1911) – o qual, com seu influente ensaio de título 1789 und 1914: Die Symbol-Jahre in der Geschichte des politischen Geistes (1789 e 1914: Os Anos-Símbolos na História do Espírito Político), teorizou sobre as duas datas anos-símbolos – os símbolos dos conflitos entre as idéias de liberdade (as de 1789) e o ideal da organização (o ideal de 1914). Em todo caso, foi um membro da esquerda do partido socialdemocrata que elaborou e se esforçou em render notas ao público mais amplo concessões similares às de Plenge. Em Drei Jahre Weltrevolution (Revolução Mundial de três Anos) Paul Lensch escreveu: “Vista em perspectiva histórica, a decisão de Bismarck no ano de 1879 foi que a Alemanha assumisse o papel revolucionário, que é o papel de um estado cuja sua posição, relativamente aos outros países do Mundo, é a de representar um sistema econômico mais avançado e assim nos damos conta do fato de que, na atual revolução mundial, a Alemanha representa a parte revolucionária e a Inglaterra, a parte contra-revolucionária” (Plenge, 1916). Plenge e Lensch – comenta Hayek – forneceram as idéias fundamentais aos mestres diretos do nacional-socialismo, em particular a Oswald Spengler e Arthur Möller van der Bruck.[[6]] Preußentum und Sozialismus (Prussianidade e Socialismo) de Spengler vem a ser publicado em 1920. Na Alemanha, escreve Spengler, muitas são as idéias mal afamadas, mas entre essas apenas o liberalismo é merecedor do maior desprezo. A verdade é que desde o tempo de Bismarck, o Estado prussiano veio a configurar-se sempre mais em sentido socialista. Pelo instinto alemão, ou melhor, prussiano, - escreve Spengler – “o poder pertence à totalidade. O singular serve a esta última. A totalidade é soberana (...) Cada um tem sua função. Manda-se e obedece-se”. E a esse ponto, conclui Hayek, “faltava só um passo para que o santo-patrono do nacional-socialismo, Möller van der Bruck, proclamasse a primeira guerra mundial, uma guerra entre liberalismo e socialismo" (Hayek 1995, p. 234).[[7]] 8. Nazismo e stalinismo: tão longe, tão perto Então: nazismo e stalinismo estão verdadeiramente tão longe, são tão radicalmente diferentes? Representam verdadeiramente o nazismo e o stalinismo a direita mais extrema e a esquerda mais extrema, ou é verdade que toda uma série de características sobrepostas nos oferecem uma imagem análoga? Nazistas e stalinistas baseiam seu totalitarismo em um presumido "saber superior" — saber superior de "natureza salvadora" detido pelo Führer ou pelo "glorioso" chefe do partido. O totalitário nazista ou comunista pensa conhecer o inelutável sentido da História; crê deter entre as mãos o sumo critério para decidir qual é a sociedade perfeita e qual é a "verdadeira" natureza do homem; está seguro de saber o que é o bem absoluto e onde está o mal absoluto; sabe qual é a raça ou, respectivamente, a classe destinada a realizar o bem sobre a face da terra e a dominar o mundo; se reputa capaz de dirigir a economia inteira. A única verdadeira diferença entre nazismo e comunismo se constitui do inimigo objetivo: a outra raça ou a outra nação para o nazismo, a classe burguesa para o comunismo; o mundo será limpo de todos os indivíduos que encarnam o mal. 9. A doença do pensamento totalitário se chama "gnose" Em 1937 Alfred Hoernlé, em uma conferência de título Would Plato have approved of the National-socialist State?, sustenta a diferença, que em Platão aqui é, entre o tirano e o filósofo-rei: o tirano é um ditador que não tem nenhuma filosofia e nenhuma idéia de bom; é obedecido porque sua força impõe o medo; ele é moralmente corrupto e na força dos seus desejos indisciplinados. O filósofo-rei, ao contrário, conhece o bem do Estado e esforça pela realização deste nobre ideal.
A presunção fatal de um conhecimento absoluto superior referente à totalidade da sociedade, o bem e o mal, a natureza do homem e desta forma é uma doença típica do pensamento totalitário — e essa doença se chama "gnose".
Em Out of Step, Sidney Hook narra uma conversa sua ocorrida em sua casa com Bertold Brecht; conversa que tinha por objeto os velhos bolcheviques fuzilados no processo de Moscou: "E foi naquele ponto que ele pronunciou uma frase que nunca mais esqueci" — escreve Hook. "Ele disse: Aqueles lá, quanto mais inocentes, mais merecem ser fuzilados. Fiquei totalmente surpreso, que cri ter entendido mal. «Como disse?», perguntei-lhe. Ele repetiu calmo: «quanto mais são inocentes, mais merecem ser fuzilados». Suas palavras deixaram-me pasmo. «Por-que? Por quê?» exclamei. Limitou-se a lançar-me um tipo de sorriso nervoso. Esperei, mas não disse nada. Mesmo depois que repeti minha pergunta. Levantei-me, andei perto do quarto e peguei o capote e o chapéu. Quando voltei a ele, ainda estava sentado em uma poltrona com o copo na mão. Vendo-me com o capote e o chapéu pareceu surpreso. Largou o copo, levantou-se, peguei o capote e o chapéu e, com um aceno de sorriso, parti. Nenhum de nós disse palavra. Não o vi mais”[[8]]. E portanto: nazismo e stalinismo — direita e esquerda — tão longe, tão perto. Banesh Hoffmann, em seu livro Albert Einstein: criador e rebelde, escreve que nos anos entre 1965 e 1967 os russos publicaram as obras completas de Einstein em quatro volumes. Antes disso, porém, os ambientes oficiais comunistas não souberam mais que linha adotar nos confrontos à teoria da relatividade de Einstein. Ainda em 1952, a teoria einsteniana havia sido atacada por um acadêmico soviético, porque contrariava o materialismo dialético, núcleo central do marxismo. O acadêmico havia repreendido alguns cientistas soviéticos para apoiá-la. Informado a respeito por uma carta, Einstein respondeu em tom jocoso, dizendo que isso o alegrava notavelmente, não obstante se incomodasse havia tempo com as limitações impostas na Rússia às liberdades de pensamento e expressão. Escreveu depois o seguinte aforismo que veio a ser publicado em 1953: "No campo da daqueles que buscam a verdade, não existe qualquer autoridade humana. Quaisquer tentativas de fazer o magistrado, vêm seguidas das risadas dos deuses " (Hoffmann 1977, pp. 274-275). E escreve, entre outras, algumas estrofes mordazes a propósito do materialismo dialético: "Com suor e fadiga enormes Um grânulo de verdade esperas ver? Oh imbecil! Aquieta-te trabalhando! O nosso partido cria a verdade com decretos. Algum espírito soberbo ousa talvez duvidar? O crânio furado é sua imediata recompensa. Assim ensinamo-lhes, como sempre antes de agora, A viver suavemente e de acordo conosco" (Hoffmann 1977, p. 275). 10. A contribuição da "Grande Viena" à construção do "ideótipo" liberal A contribuição de prestigiosos expoentes da "Grande Viena" (C. Menger, E. von Böhm-Bawerk, L. von Mises, F. A. von Hayek, K.R. Popper) foi decisiva no nosso século. Pelo desmascarar da "presunção fatal" dos nazistas, fascistas e stalinistas. Tratou-se de um desmascarar efetuado com instrumentos lógicos, epistemológicos e de teoria econômica, mandando às favas todo sermão moralista. Lênin não estava errado quando dizia que, para ele, Mach era mais perigoso a Viena que o czar a Moscou. E Mach era mais perigoso a Viena que o czar a Moscou pela razão que o "armamento gnoseológico" de Mach, entre outros, estava em condições de devastar ab imis fundamentis aquela "mitologia do materialismo dialético para a justificação do totalitarismo comunista. E é propriamente dos trabalhos dos grandes "vienenses" supracitados – mesmo se não só de suas obras – que emerge o ideótipo do homo liberalis. O defensor da liberdade é, antes de tudo, uma pessoa cônscia de sua falibilidade e da falibilidade alheia e da ignorância própria e alheia – de modo especial da ignorância de todos os indivíduos relativa ao conhecimento de situações particulares de tempo e de espaço. Os defensores da liberdade, sabendo que o "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", não se faz a pergunta "quem deve comandar?"; busca antes responder à pergunta sobre "como comandar quem comanda?". Contra o estatismo, o liberal é liberalista: defende a economia de mercado, não só porque essa gera o mais amplo bem-estar, como sobretudo pelo fato de que sem economia de mercado não pode existir nenhum estado de direito – e, de fato "quem possui os meios estabelece os fins". O liberal refuta a idéia liberticida, estando acima do indivíduo qualquer outra entidade – como, por exemplo, o Estado, o partido, a classe etc. – autônoma e independente dos indivíduos: somente existem indivíduos. Os liberais sabem que a (presumida) sociedade perfeita é a negação da sociedade controlada: em todo utopista hiberna um capitão-de-ventura. Não era e não é um conservador: o conservador teme à novidade; o liberal, ao contrário, assume a concorrência como um procedimento de descoberta do novo. O liberal não é anárquico, não é libertário: o liberal não pensa que não existem funções e deveres a serem delegados ao Estado. O liberal, diferentemente dos construtivistas, sabem que nem todas as instituições e eventos histórico-sociais são originados do plano intencional – dão-se de fato as inevitáveis conseqüências não intencionais das ações humanas intencionais. E portanto não era e é avesso também à teoria conspiratória da sociedade, à qual todos os eventos sociais negativos seriam frutos de conspirações ou conjurações ordenadas por inimigos ou, seja como for, indivíduos malvados – a realidade é que podem existir causas sem culpa e acertos sem mérito. O liberal defende, contra o Estado onívoro, os corpos intermediários e as instituições voluntárias. O liberal sabe que o mercado, ao par da ciência, é sempre inocente – se alguém contrai lucro vendendo armas ou traficando drogas, culpado não é o mercado; culpados são aquelas pessoas que vendem e drogas e desumana é sua ética. A ser reformado, neste caso, não é portanto o mercado, mas a ética; e ineficaz foram os pais, professores e pregadores. Nem é de se pensar que o mercado negue a solidariedade. A Grande Sociedade, ensinou entre outros F.A. von Hayek, não só pode ser solidária, porque é rica e pode assim permitir-so; ela deve ser solidária, porque, tendo-se rompido os vínculos que mantinham unidos os indivíduos no pequeno grupo, anula aquelas relativas segurança e proteção da qual gozavam os débeis: do dever do Estado de vir ao encontro dos necessitados de ajuda. Mercado e solidariedade são conjugáveis. Não conjugáveis são, pelo contrário, mercado e dissipação dos recursos, mercado e corrupção; o estatismo faz do homem ladrão e transforma os cidadãos em mendigos a serem resgatados o que lhes faz, por conseguinte, eleitores. E, por último, o liberal não é anticlerical. Escreve Hayek: "A diferença do racionalismo da Revolução Francesa, o verdadeiro liberalismo não tem nada contra a religião e não posso senão deplorar o anticlericalismo militante e essencialmente não liberal, que animou grande parte do liberalismo continental do século XIX ". Junto aos termos desta contribuição, o meu grato pensamento vai certamente ao amigo e professor Sergio Ricossa. Em anos tristes para a cultura italiana, triste para a teoria e prática da liberdade, Sergio Ricossa, solitário e com coragem, percorria os caminhos da "razão" da liberdade – e no-la indicou. Distante, hoje como ontem, dos "praticões da política", sobre o traço de Hayek, nos ensinou e ensina a refletir sobre princípios e, na base dos princípios, a valorizar homens, fatos e idéias. E encerro: quem sabe quantas observações críticas haverá de fazer Ricossa nos confrontos do ideótipo do homo liberalis acima delineado? Quais pontos haverá de acrescentar, o que haverá de subtrair, precisar ou redefinir? Talvez me repreenda por ter-me atido à "Estação Liberal"; talvez me diga que devo apressar-me ao "Caminho Libertário". Quem sabe? Encontrei Sergio Ricossa, pela primeira vez, mais de trinta anos atrás no escritório do Editor Amando; e depois outras vezes; recentemente na ocasião – deveras bela – da jornada torinense de estudos em honra do professor Enrico di Robilant. Ainda nos encontraremos e discutiremos e estou certo de que aprenderei. No momento, porém, não estou disposto a seguir o amigo-mestre Sergio Ricossa na direção do compasso dos "libertários". Proíbe-mo Hayek, já que o libertarianismo me parece propriamente como uma forma de construtivismo, liberalismo construtivista. Desaconselha-o Popper, porque "a sociedade aberta é um fato e um ideal". Ricossa, e certamente não o levará a mal, pare de insistir-me tanto sobre esse ideal; de minha parte, pelo contrário, e não penso por minha vez estar fazendo mal, olho com preocupação os fatos e presto atenção sobre uma teoria não construtivística e evolutiva da liberdade – uma teoria não construtivista, mas não por isso não empenhada sobre o plano concreto da política. Dario Antiseri - 1999 [1] Mises prossegue: "E também isso foi um êxito de sua concordância com as idéias que guiavam os políticos dos partidos mais influentes de todos os outros países. Tais partidos tinham a igualdade de rendimentos como a coisa principal. Os nazistas fazem o mesmo. O que caracteriza os nazistas é o fato de não estarem dispostos a aceitar uma situação na qual os alemães estejam condenados para sempre a ficaram "aprisionados", como os mesmos diziam, em uma área comparativamente pequena e superpopulada, na qual a produtividade do trabalho deve ser mais baixa que nos países comparativamente subpopulados, ou melhor providos de recursos naturais e de capital. Seu objetivo é uma distribuição mais igual dos recursos naturais da terra. Como nação «deprivada» (have-not) esses olham a riqueza das nações mais ricas com o sentimento com o qual muitas pessoas nos países ocidentais olham os rendimentos mais altos de alguns entre seus concidadãos. [2] Para Mises as políticas pró-socialistas dos países industrializados da Europa Central e Ocidental tinham, na evolução rumo ao socialismo, um peso maior que a busca por poder da parte de Lênin. “O plano de seguridade social de Bismarck foi um experimento no caminho em direção ao socialismo mais importante que a expropriação das indústrias russas retiradas. As ferrovias nacionais prussianas tinham fornecido o único exemplo de empresa administrada pelo governo que, ao menos por um pouco de tempo, tenha evitado uma manifesta falência financeira. Os ingleses já tinham adotado antes de 1914 partes essenciais do sistema alemão de seguridade social. Em todos os países industrializados, os governos estavam empenhados em políticas intervencionistas, destinadas a desembocar por fim no socialismo. Durante a guerra, a maior parte desses países se empenhou naquele que se tem chamado "socialismo de guerra". Na Alemanha, o programa de Hindenburgo que, obviamente, não pôde ser completamente realizado por causa da derrota alemã, era igualmente radical mas muito mais bem projetado que os planos quinquenais russos, sobre os quais tanto se fala” (Mises 1990, p. 620). [3] Hitler “era, assim como a maior parte de seus colaboradores, um gângster sádico. Ele era inculto e ignorante; até repetiu o primeiro ano do ginásio. Não exerceu mais nenhuma boa atividade. É uma fábula que teria sido tapeceiro. Sua carreira militar na Primeira Guerra Mundial foi antes de tudo medíocre. A Cruz de Ferro de primeira categoria foi-lhe dada após o final da guerra como prêmio por suas atividades como agente político. Era um obcecado em busca da megalomania”. [4] Sombart - aponta Mises - que “a American Economic Association tinha eleito como membro honorário e ao qual muitas universidades alemães haviam conferido o laurel honoris causa” (Mises 1990, p. 633) [5] E ainda: “O verdadeiro significado da revolução de Lênin é o de ver no fato a explosão do princípio da violência e da opressão sem limites. Foi a negação de todos os ideais políticos que por três mil anos haviam guiado a evolução da civilização ocidental” (Mises 1990, p. 621). [6] Em nota, Hayek (1995, p. 232) cita outros intelectuais da germanística que produziram o nazismo e, entre esses, menciona: Othmar Spann, Hans Freyer, Carl Schmitt e Ernst Junger. [7] Sull'argomento si veda Moeller van der Bruck (1933, p. 87). [8] Vedi Hook (1987) cit. in Revel (1989, p. 324) posted by: fsp | 03:57 | comments Sunday, September 10 Ilusão Rio-GrandenseAo assistir à parte nacional do horário eleitoral, resta-me uma dúvida cruel: o Rio Grande não pertence ao Brasil ou não necessita de nada que venha do Governo Federal? Visto que nenhum candidato apresenta nenhum projeto para o Estado, nem exibe gaúchos orgulhosos de votarem no postulante à presidência ou exaltando o que fez por nós, uma das respostas acima parece ser definitiva. Geraldo Alckmin fez muito pelos brasileiros de todos os cantos e que moram em São Paulo, menos gaúchos. Lula ajudou uma enormidade de pessoas pelo Brasil afora, menos na Província de São Pedro. Todos querem ou já estão providenciando novas linhas de metrô por todo o País, menos por aqui. Até para denunciar, mostram como há gente desamparada por toda a Terra de Santa Cruz, menos no canto setentrional dela. Poderíamos então deduzir que o Rio Grande ainda não foi incorporado ao território brasileiro ou dele já se desmembrou. Dessa forma, os eleitores rio-grandenses não votariam em nenhum dos presidenciáveis, por não terem direito a voto nas eleições brasileiras e nem a estes interessaria fazer campanha para quem neles não poderia votar. Bueno, sabemos que pertencemos ao mesmo país da dona Maria, do seu João e de todos os personagens apresentados nos programas políticos. Logo, a primeira hipótese está excluída. Na segunda possibilidade, estaria justificado por que ninguém se preocupa com outra linha de metrô para Porto Alegre, não apresenta cenas de estradas esburacadas no nosso interior, não se comove com pobres em nossas periferias. Simplesmente, nosso(s) metrô(s) atenderia(m) perfeitamente a nossas necessidades, nossas estradas são de primeiro mundo e não temos pobres nas periferias. A evidência empírica de qualquer cidadão gaúcho rejeita a segunda hipótese, pois. Seria, portanto, que os brasileiros têm uma imagem superestimada de nossa pujança econômica e uma visão subestimada de nossas necessidades? Que acreditam que não somos prioridade para nada? Que nossos pobres ou nossas estradas são menos dignos de atenção que os “dos outros”? Seria que nosso orgulho nos impede de implorar por recursos e preferimos minguar de cabeça erguida? Seria que acreditamos sempre sermos capazes de resolver nossos problemas sem “interferência externa”? Seja qual for a assertiva correta, temos algumas opções: mendigarmos os cuidados do Governo Federal, tomarmos a frente na política brasileira, buscarmos mais autonomia ou deixarmos tudo como está.
Publicado nos jornais Agora (Rio Grande-RS), Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul-RS) e A Platéia (Santana do Livramento-RS) posted by: fsp | 15:39 | comments (1) Sunday, August 27 Legítimos Herdeiros de CheApós quase quatro anos de suplício sob o jugo das hostes petistas que encamparam a coisa pública de forma assoladora, já é possível afirmar, sem sombra de dúvida, que o Partido dos Trabalhadores, em seu formato atual, tem todo direito de reivindicar para si o título de autênticos seguidores da doutrina de Ernesto Guevara no século XXI. Vide seus fanatismo e messianismo, bem como crimes e amoralidades daí decorrentes. O partido que hoje rege o Brasil construiu ao longo de anos um projeto de poder. Planejou meticulosamente o assalto ao Estado e, em conformidade com a cartilha gramsciana, fizeram da desfaçatez e da mentira suas principais armas para a tomada dos cargos e bens públicos do País, tanto quanto o domínio futuro das vidas de seus cidadãos. Assim como o argentino Guevara, o que move os correligionários do Presidente é um suposto desejo de melhorar o Mundo. É a cega e arrogante convicção de achar que têm as perfeitas soluções para tudo; que só eles as têm; e que os obstáculos devem ser removidos a qualquer custo. Igual ao castelhano, que fazia julgamentos sumários em Cuba, em tribunais “revolucionários”, onde apenas a acusação tinha voz. O que se assistiu nos escândalos do Governo Lula apontou uma faceta clara, que poucos parecem querer enxergar: o PT é, sim, diferente. O PT não se tornou “igual aos outros” ao chegar à Presidência. O PT não rouba como “todos os outros”. Essa simplificação grosseira impede-nos de destacar justamente o que há de mais assustador neste mandato presidencial, que é a corrupção institucionalizada. O crime para o sustento de um projeto. Ao contrário do “tradicional”, (praticamente) não se viram casos de companheiros transgredindo leis para proveito pessoal. O que começou com uma criação desenfreada de cargos estatais para enriquecimento do partido (visto que os correligionários de José Dirceu devem destinar parte do salário ao PT), foi rapidamente desnudado, mostrando custeios descarados e ilegais de viagens (Benedita da Silva), achaque para o partido (Waldomiro Diniz), embarque de dinheiro ilegal (dólares na cueca), dinheiro desviado de estatais para campanhas do partido (sistema Marcos Valério), compra de deputados para fortalecer o partido no Congresso (mensalão) e assim por diante. Tudo pelo partido. Tudo pelo Partido. Ao punir com expulsão os camaradas “traidores” que votaram contra o Governo (o caso dos “radicais”), o PT agiu com a mesma frieza pragmática de Che, fundador do pelotão de fuzilamento contra os próprios militantes que dele discordassem. Assim como para a Revolução Cubana, questionamentos de método deveriam ficar para depois, a fim de não atrasarem a marcha de Sierra Maestra. Assim é com o Partido dos Trabalhadores no Governo. Esse projeto retrógrado costuma ofuscar totalmente a visão de seus defensores. Tal como Bush “libertando” quem não pediu para ser libertado, são os caolhos socialistas que querem “salvar” os proletários do Mundo. Não há espaço para a discordância. Até porque a mesma torna-se instantaneamente nas bocas esquerdistas “falta de consciência de classe”. E os cubanos continuam “livres” tentando fugir da Ilha de Castro. Não sabemos aonde isso vai parar. Porém, se observarmos o caso de Santo André (a morte de Celso Daniel e, posteriormente, de quase todos envolvidos no caso), podemos afirmar que disposição não falta aos herdeiros tupiniquins de Che Guevara. |