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A Língua Nova e a Hipocrisia

Felipe Simões PiresFelipe Simões Pires
felipe_simoes_pires@yahoo.com.br
fsp.motime.com/
Passeando pela página do jornal argentino El Clarín na internet, tive a felicidade de encontrar um especial sobre a participação do escritor Jorge Luis Borges no periódico, bem como suas vida e obra. Dentre os materiais acessíveis, pincei intrigante e revelador texto do ano de 1984, em que esmiúça a hipocrisia escondida atrás de eufemismos.

Segundo Borges, o orgulho exacerbado sobre a imagem argentina seria o motivo do abuso no emprego de termos suavizados para coisas ruins e pomposos para coisas triviais. Ao perceber que quase tudo ao que o escritor se refere é de uso corrente no Brasil, só posso crer que este país padece do mesmo mal que os hermanos ou que o beletrista argentino se equivocou. Tomarei como desnecessária a discussão sobre o ego brasileiro e preferirei ater-me às nuanças de interpretação a partir dos usos da linguagem para ocultarem um mundo.

Na época em que o artigo foi escrito, ainda não existia a praga do politicamente correto. Borges mostrava insatisfação em ser cego e ser chamado de “no vidente” e, provavelmente, teria ido à loucura se tivesse chegado a viver em nosso tempo, onde fomos inundados por modismos do que “se deve falar” e que nos obrigaram a aprender uma língua totalmente nova.

Um negro, um gay, um cego e a velhice sempre foram entendidos como um indivíduo de cor preta, uma pessoa que se relaciona com outras do mesmo sexo, a impossibilidade de enxergar e muitos anos de vida. De um dia para o outro, palavras corriqueiras tornaram-se palavrão e foram substituídas por termos elegantes como afro-descendente, homossexual, deficiente visual e terceira idade.

Curiosamente, desde que essa regra entrou oficiosamente em vigor, a fala tornou-se latifúndio para o exercício da hipocrisia e do preconceito travestido. Dizer que alguém fez uma “afro-descendentice”, que tal comportamento é uma “homossexualidade” e que a “terceira idade só atrapalha” não passou a ter um caráter menos preconceituoso, nem se despiu do que esse tipo de visão carrega, que é atribuir previamente características indesejáveis a um ser humano, baseado em sua aparência ou comportamento social.

A defesa fragorosa da prevalência desse falar em nossa sociedade como uma vitória dos oprimidos, além de demagógica, é hipócrita. Nenhum desses grupos humanos recebeu mais direitos ou saiu da opressão pelo simples fato de novas palavras serem pronunciadas com o mesmo sorriso irônico no rosto.

Igualmente, uma candidatura custeada com caixa dois (recurso não contabilizado), invasão militar de refinarias brasileiras (exercício da soberania boliviana) ou destruir o congresso (chamar a atenção da sociedade) são infinitamente mais repreensíveis que falar português sem rodeios.

Sobre o Autor
Escritor, tradutor e acadêmico do curso de Filologia Alema na Universidade Livre de Berlim

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