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A Hipótese do Agenda-setting e o Jornalismo Investigativo: explanações e reflexão

Carolina Teixeira WeberCarolina Teixeira Weber
caroltweber@gmail.com
Nos dias atuais, o poder da mídia deixou de ser uma questão, para tornar-se fato concreto e fortemente consolidado. Os meios de comunicação – especificadamente os denominados mass media: rádio, TV, jornal, internet – não poderiam de forma alguma ser classificados como um universo à parte, um item opcional de nossas vidas. Em um mundo cada vez mais globalizado, em que se redefinem termos como tempo, fronteiras, nação, barreiras, privacidade, etc., esses meios vêm a ser uma espécie de extensão de nossos sentidos, parte integrante de nosso ser. A partir desses instrumentos de comunicação, passamos a ter uma nova percepção do mundo, pois estes também são, de alguma forma, nossos olhos e ouvidos, pois trazem ao nosso conhecimento histórias que não podemos presenciar e que, de outra forma, nunca saberíamos. Interferem diretamente em nossas relações sociais. Indivíduos que insistem em manter-se alheios ao bombardeio de informações diárias tendem a ser excluídos de muitos grupos de conversa, no momento em que estas informações passam a fazer parte do cotidiano das pessoas, motivo para preocupações, discussões, debates acalorados e, mais além, de muitas ações.

Não se trata de uma simples imposição de idéias e comportamentos; isto com certeza não seria possível, pois não há uma homogeneidade de idéias, experiências e culturas entre o público receptor, e este é livre para aceitar ou não o que vê, ouve ou lê. Sem esquecer que o “mundo” apresentado pelos mass media não é pura e simplesmente o “mundo real”, mas uma recriação deste, uma remontagem feita a partir de experiências e visões de quem veicula cada notícia – no caso, os jornalistas. Porém observa-se uma tendência de julgarmos o que é importante ou não com base no que é publicado, divulgado, hierarquizando, de certa forma, os informações recebidas. Um exemplo claro disso é a disposição das notícias em um jornal impresso. Algumas recebem maior destaque, com manchetes coloridas, em letras garrafais, estampadas na capa. Outras recebem menor espaço, muitas vezes tornando-se uma simples nota. Estas que são contempladas com o papel de destaque nos veículos de comunicação, por serem mais vistas, são mais lembradas – por conseguinte, mais debatidas nos meios sociais.

Em poucas palavras, uma das conclusões às quais se chega é de que “embora a imprensa, na maior parte das vezes, possa não ser bem sucedida ao indicar às pessoas como pensar, é espantosamente eficaz ao dizer aos leitores sobre o que pensar” (McCombs e Shaw, 1972 In: Traquina, 2000, p. 49). De anotações como esta basea-se a hipótese do Agendamento, ou Agenda-setting, cujos estudos buscam analisar, como tantos outros no campo do Jornalismo, a influência da mídia sobre a vida das pessoas. Falamos em hipótese, e não em teoria, porque a primeira, diferente da segunda, é um sistema aberto, sujeito a experiências e experimentações, sendo sujeita tanto a acertos como a erros. As teses elaboradas na linha de pesquisa do Agenda-setting buscam uma ponte entre várias teorias clássicas, porém sob uma visão mais ampla, considerando o processo de comunicação não um processo fechado, fragmentado e suscetível de ser resumido em uma só teoria, e sim um processo com inúmeras variantes e inesgotáveis possibilidades, cujos efeitos são sentidos a médio e longo prazo, por um tempo muito aquém do tempo de uma cobertura jornalística.

Grande exemplos, e alguns dos principais alvos da hipótese do Agendamento, são os períodos eleitorais. Nos meses que antecedem as eleições, os meios de comunicação têm a capacidade de se transformarem em verdadeiras arenas, apresentando uma luta acirrada dos candidatos em questão. Além do horário político obrigatório veiculado na TV aberta, a programação das rádios e as manchetes dos jornais são espaço para discussão política, onde o filé mignon está cirurgicamente localizado nas pesquisas de opinião, às quais dá-se extrema importância e destaque. Quanto mais se aproxima das eleições, maior é o interesse do público por informações que possam esclarecer as dúvidas e auxiliar a escolha de seu candidato; então, uma grande fatia do público se utiliza dos resultados divulgados destas pesquisas para obter parâmetros comparativos entre os concorrentes, levando em conta a possibilidade de se ter uma vaga idéia do resultado final. Ora, quantas vezes ouvimos alguém dizer que votará em um candidato “x” apenas porque tem mais chance de vencer “y”, baseado nas lideranças das pesquisas de opinião? Aliás, este método é tão valorizado que chega a ser ponto forte na propaganda de certos candidatos, deixando-se de lado a demagogia do discurso político para utilizar-se de tal instrumento da mídia a seu favor.

Porém, não podemos afirmar que a midiatização das campanhas eleitorais sejam completamente responsáveis pelos resultados das eleições, apesar de compreendermos sua influência. Muitas vezes as pesquisas divulgadas mostraram-se equivocadas, e opiniões de jornalistas, errôneas, ao apurar dos votos. Isso porque a influência do agendamento por parte da mídia depende, efetivamente, do grau de exposição a que o receptor esteja exposto, mais que isso, do tipo de mídia, do grau de relevância e interesse que este receptor venha a emprestar ao tema, a saliência que ele lhe reconhecer, sua necessidade de orientação ou sua falta de informação, ou, ainda, seu grau de incerteza, além dos diferentes níveis de comunicação interpessoal que desenvolver em informação (HOHLFELDT, 1997).

Mais uma vez reafirmamos que a hipótese do Agenda-setting não constitui-se de um sistema fechado. A mídia tem capacidade de dar relevância a determinados temas, destacando-os do conjunto, acumulando informações sobre o mesmo. E, apesar de suas especificidades, nota-se uma generalização nas diferentes mídias – rádio, jornal, televisão -, uma padronização na escolha dos temas a serem abordados. Exemplos de forma de incorporar uma notícia à agenda jornalística são as chamadas suítes, desdobramentos de matérias de considerada importância e interesse, que ganham acompanhamento diário e coberturas especiais, muitas vezes ganhando diferentes enfoques.

A seleção dos assuntos parte de premissas básicas da atividade jornalística, por alguns autores, os chamados critérios de noticiabilidade. Importância, interesse, proximidade dos fatos com o público – seja o tema local, ou global. Quando certo assunto ganha certa notoriedade e finalmente conquista o status de assunto diário da população, conclui-se que passou pelo crivo interesse. Então, não merece apenas a banalização em pequenas notas diárias, ou um acumulado de notícias em que há muita informação, mas em dados difusos, perdidos. Esses casos merecem um aprofundamento, uma busca maior que a rapidez do jornalismo diário muitas vezes não oferece. Para este, entramos no campo do jornalismo investigativo.

INVESTIGAR v.t. (lat investigare) 1. Seguir os vestígios.
2. Pesquisar, inquirir, indagar. 3. Examinar com cuidado.

Todo jornalismo, por sua essência, é investigativo. Para cada pequena nota que será posteriormente veiculada – seja impressa no jornal, lida no rádio ou enriquecida por imagens na TV – é necessária uma indagação, uma busca por material, informação, enfim, uma pesquisa. Porém, convencionou-se rotular de Jornalismo Investigativo (digno de letras maiúsculas) aquele que se ocupará de assuntos mais ou menos polêmicos, geralmente gastando maior tempo e atenção para investigação do que em matérias mais corriqueiras, sem falar que, claro, constituir-se-ão das maiores reportagens, falando-se em minutos (no rádio e TV) e páginas (jornalismo impresso), sendo que muitas rendem best-sellers e prêmios a seus jornalistas-autores.
Uma das primeiras idéias que vêm à cabeça das pessoas, a partir do senso-comum, de jornalismo investigativo é a de que sua natureza é extremamente ligada à polêmica e ao sensacionalismo barato. Isso porque esse segmento do Jornalismo é baseado na denúncia, forte e explícita de aspectos ocultos da sociedade. Porém, esse caráter de denúncia não confere necessariamente ao Jornalismo Investigativo um caráter sensacionalista. Porém, muitas investigações importantes caem nas graças do espetáculo, devido a jornalistas ofuscados pela fama e pelo famoso “furo” jornalístico, ou a programas dedicados a transformar casos em produtos dignos de fazerem parte da indústria cinematográfica.

Apesar de observar-se que temas como crime organizado, corrupção e narcotráfico são alvos permanentes do gênero, seu conceito é muito mais abrangente - comportamento, sociedade, natureza, ciência, todos estes campos são passíveis de investigação. Como características fundamentais, a busca pela clareza, pelo “desenredar-se” dos fios que se enrolam e ocultam a natureza dos fatos, pela objetividade, transparência e, principalmente, fidelidade aos fatos. Para alcançar tais objetivos, o jornalista que se propõe a enveredar-se pelos caminhos da investigação deve utilizar-se uma metodologia própria, buscando ampliar seu campo de visão, porém sem perder-se em enganos. A consulta a bancos de dados (internet), se não a busca destes em suas fontes (por exemplo, em arquivos policiais, municipais, etc) e, conseqüentemente, o cruzamento de todas as informações colhidas constituíram-se a base deste tipo de jornalismo, em que a citação das fontes no decorrer do texto é parâmetro de confiabilidade e prova do esmero do profissional.
Antes de iniciar uma investigação, é preciso um esforço que inicia na escolha do tema: quebrar as barreiras da aparência. Vencer o preconceito e apagar da memória todas as idéias pré-concebidas sobre o tema que será investigado. Trabalho árduo, que exige exercício diário e cujos resultados só serão sentidos com um bom tempo de prática. A investigação é um trabalho complexo. A curiosidade e persistência serão os carros-chefe no decorrer do serviço, e as dificuldades surgirão como obstáculos para serem vencidos ou faze-lo desistir. Se o acesso a arquivos públicos muitas vezes é difícil, quem dirá o acesso às mentes das pessoas. Interlocutores com dificuldades para expressar suas idéias, respostas monossilábicas, caras amarradas, negações. No campo da investigação, a insistência – e paciência – é a alma do negócio.

Fala-se muito do poder da imprensa – o de disseminar informações, divulgar fatos, dando-lhes certa amplitude, contextualizando-os em seu universo. Universo o qual compete ao jornalista construir, uma imagem refletida da “realidade”, a fim de levar ao conhecimento do público não simplesmente fatos, mas visões torne este público capaz de constituir opinião. Esta mesma imprensa que, muitas vezes, mesmo que imperceptivelmente, acaba por ditar comportamentos, espalhar culturas, condicionar o que é importante ou não saber, o que é importante ou não ser discutido, já está enraizada em nossas vidas. É impossível ser indiferente ao bombardeio de informação, ao apelo da publicidade, do marketing jornalístico, apesar de, acordando com nosso grau de instrução e bom-senso, selecionarmos o que serve ou não. Há uma cobrança generalizada de conhecimento, erroneamente mede-se intelecto com informação; um indivíduo atual, com inteligência, é o indivíduo bem informado, atento ao maior número possível de acontecimentos no mundo, independentemente dessas informações afetarem sua vida ou não, ou mesmo serem superficiais.

Mais que a busca pelo número de informação veiculada, os mass media deveriam primar pela qualidade da informação. Informação correta, bem checada, de fonte segura; matérias bem feitas, bem tratadas. Já que cabe aos profissionais jornalistas a escolha pelos assuntos que a grande massa irá ficar sabendo, esta escolha deve ser feita com cuidado, não sendo egoístas a ponto de deixar preconceitos e gostos pessoais prevalecerem sobre a informação relevante, tampouco se deixar banalizar a hierarquização das notícias por puro hábito ou tradição. Afinal, não é pequena a responsabilidade da decisão de divulgar ou omitir certo dado do conhecimento público.

A mesma responsabilidade social cabe ao jornalismo investigativo; este deve sempre manter a linha da clareza e fidelidade, cumprindo a nobre missão de trazer à tona fragmentos da realidade desconhecidos – muitas vezes inimagináveis - pela maioria. Seu maior alimento e objetivo é a denúncia, sim, mas não deve cair no brilho do “furo” e da fama, muito mais emocionando que informando. O resultado de uma investigação não deve transformar-se num espetáculo, seja ele qual for, muito menos os envolvidos em meros personagens de teatro ou novela. Em espetáculos, se usa muita maquiagem, figurinos, máscaras por vezes. E não é essa a cara que desejamos o nosso jornalismo, nem desejamos ser o público que apenas aplaude no final.


[Referências bibliográficas:]


BRUM, Juliana de. A Hipótese do Agenda-Setting: Estudos e Perspectivas. Artigo publicado no site Razon y Palabra. Disponible em

HOHLFELDT, Antonio. Os Estudos sobre a Hipótese do Agendamento. In Revista Famecos, número 7. Porto Alegre: ..., 1997.

LEMOS, Agatha. Jornalismo investigativo, jornalismo social. Artigo publicado no site Canal da Imprensa. Disponível em:

Dicionário Larousse Cultural. São Paulo: Noval Cultural, 1992.

Sobre o Autor
Natural de Bagé, RS. Bacharel em Jornalismo (2007) pelo Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, Santa Maria - RS. Pesquisadora nas áreas de Internet e usos da rede, Jornalismo On-line e Editoração Eletrônica. Contato: caroltweber@gmail.com

Comentários (1)
Avaliado porFatima Couto, novembro 7, 2007
Parábens, menina!
Ótimo texto.

Um abraço

Fátima Couto
JORNALISTA
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