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Publicado em
2009-10-09

Como o governo poderá nos vegetarianizar no futuro

Robson FernandoRobson Fernando
robfbms@hotmail.com
consciencia.blog.br/
O crescimento do movimento de defesa dos Direitos Animais está crescendo irreversivelmente, com cada vez mais pessoas conscientizando-se em relação às perversidades da exploração animal promovida, entre tantos outros fatores, pelo consumo de alimentos como carnes, laticínios, ovos e mel.

Com o crescimento da consciência de que os animais merecem a libertação do jugo proprietário e exploratório humano, o abolicionismo animal crescerá a tal ponto que os governos ou serão ocupados por abolicionistas ou ficarão acuados a tal ponto que, em vez de continuar ignorando ou reprimir a defesa animal, terão que adotar medidas favoráveis à liberdade dos animais e cerceadoras da exploração dos mesmos.

Essa realidade futura é bastante possível, se não inevitável, ainda que aconteça apenas daqui a um século ou mais. Ainda que demore, é saudavelmente construtivo pensar-se desde já como ela deverá começar a ser incorporada na legislação, inclusive constitucional, e nas políticas públicas. O ponto mais importante e desafiante de se pensar é como vai ser abolido o consumo de alimentos de origem animal sem ficar caracterizada uma imposição despótica.

Depois de se interditar a exploração de animais em circos, pseudoesportes, rinhas, tração de carroças, comercialização, testes científicos e industriais, gaiolas domésticas, extração de peles etc., chegará inexoravelmente a hora em que o próximo passo para continuar a libertação animal será a interdição do consumo de alimentos de origem api-pesco-pecuária (mel, pescado e alimentos derivados da pecuária).

Será como um exército libertador estando frente a frente com um dos últimos redutos do inimigo, numa situação em que ou a batalha acontece ali ou a luta irá parar com o objetivo da guerra não sendo alcançado. A estratégia certa deve ser pensada.

A medida aqui sugerida é semelhante ao que vem acontecendo hoje no Brasil com o cigarro: em vez de proibição abrupta, o desencorajamento do consumo através de advertências educativas e aumentos de preços. O primeiro produto a ser cerceado por uma política pública veg(etari)ana seria evidentemente a carne, cuja produção é a causa magna da morte de animais na pecuária.

Toda carne passaria a ser obrigatoriamente embalada em plástico com rótulos – o que já encareceria o seu preço nos supermercados – contendo advertências que se tornariam cada vez mais fortes ao longo dos anos, relacionadas à ética animal, às consequências perversas no meio ambiente e aos efeitos maléficos do consumo regular da carne (vermelha) à saúde. A alíquota de impostos seria gradativamente aumentada, de modo que o consumo de carnes se torne mais e mais prejudicial ao bolso.

O passo seguinte seria o cerceamento do leite, dos ovos e do mel. Como não são tão impactantes ambientalmente quanto a pecuária de corte e a pesca, prevaleceria a argumentação ética na campanha de educação vegetariana. Sofreriam as mesmas sanções de preço e advertências nas embalagens.

Ao mesmo tempo, indispensavelmente, haveria em vigência uma campanha permanente de conscientização vegetariana de massa. Pelos meios de comunicação e por panfletagem, o governo explicaria todos os motivos por que passou a investir contra o consumo de carne e outros alimentos de procedência animal e por que o vegetarianismo é uma opção alimentar melhor em todos os sentidos.

Propagandas mostrariam por que os alimentos de origem animal são dispensáveis, ética e ambientalmente perversos e nocivos à saúde e como ser vegetariano/a faz diferença positiva na vida das pessoas. Cartilhas de culinária vegana seriam distribuídas, se não vendidas a preço simbólico, para mostrar como é diversificada a alimentação livre daquele peso ético.

Também haveria a fomentação econômica da agricultura sustentável e orgânica de consumo interno – uma utopia distante se enxergada hoje, mas uma realidade contemplável num futuro de aceitação governamental dos Direitos Animais, da sustentabilidade e dos valores relacionados com ambos –, medidas para se abaixar o preço dos derivados da soja – item que traz uma enorme variedade de opções gastronômicas apreciadas por muitos/as vegetarianos/as – e campanhas nacionais de injeção anual de vitamina B12 sintética.

Em no máximo poucas décadas, a pecuária e outras atividades de exploração animal alimentícia perderiam praticamente toda a sua demanda consumidora e força econômica e a decretação de sua ilegalidade já não seria vista como uma imposição forçada vegana. Os Direitos Animais ganhariam mais uma batalha e o cenário de libertação animal estaria mais próximo.

Tais medidas, ainda que não deixassem de enfrentar oposição do empresariado ligado à pecuária, à pesca e à aquicultura e de pessoas que resistissem a aceitar e assimilar a mudança de costumes alimentares, teria um peso impositivo muito menor do que a deliberada proibição abrupta da produção e consumo de alimentos de origem animal, a qual teria efeitos difíceis de se especular hoje mas sabidamente piores do que o acontecido durante a Lei Seca das décadas de 1920 e 30 nos EUA.

Medidas como as descritas acima, desde que aplicadas com simultaneidade, em vez de impor arbitrariamente a obrigatoriedade de um determinado hábito alimentar, conseguirão esclarecer à população como a alimentação onívora é prejudicial em muitos sentidos, digna de abandono, e o vegetarianismo, em contrapartida, é algo muito mais saudável, sustentável e ético. Com esclarecimento, haveria uma aceitação, ainda que não unânime, da alimentação livre das interrogações éticas do onivorismo e do vegetarianismo incompleto (lacto-, ovo- e ovolacto-vegetarianismo).

A Constituição, que teria passado a conter artigos dedicados exclusivamente aos animais, daria a ressalva necessária para permitir o desprestígio gradual do consumo de carne, laticínios, ovos, mel e produtos contendo os mesmos como ingredientes. Reconheceria o direito à vida e à liberdade de animais domésticos, domesticados e silvestres, mas consideraria a necessidade da diminuição progressiva dos alimentos de origem animal em vez de sua interdição brusca.

Com esta sugestão, poderá se tornar mais fácil o cumprimento de uma etapa que será obrigatória no avanço da sociedade rumo à libertação animal: o cerceamento da pecuária, pesca e apicultura pelo desencorajamento do consumo de alimentos nelas originado. Unificará saudavelmente a censura à exploração animal para fins alimentares e a mais que necessária conscientização das massas em relação à alimentação ética e sustentável.

Sobre o Autor

É escritor independente de artigos, apaixonado por sociologia e dono do blog Arauto da Consciência. Escreve artigos desde setembro de 2007.


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