Sustentabilidade é um tema imperativo e quotidiano na mídia e em nossas preocupações. A conjugação do trinômio “desenvolvimento econômico”, “desenvolvimento social” e “respeito ao meio ambiente” perpassa todas as grandes questões da atualidade. O documentário “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore, apresenta com a dramaticidade necessária os descaminhos para os quais levamos nosso planeta. É verdade: o tema “sustentabilidade” é crucial para o futuro de nosso planeta e de nossa civilização.
Mas, como responder à mãe que me procura hoje para atendimento imediato a seu filho portador de paralisia cerebral, incapaz de atividades mínimas como comunicar-se, locomover-se sozinho, alimentar-se ? O que dizer a ela, desempregada e desamparada, quando nossa quota de bolsistas gratuitos já está superada de muito, que não há vaga para seu filho no tratamento com os cavalos que ele espera já há tanto tempo ?
O que significará “sustentabilidade” para uma vida, para a vida de uma determinada pessoa, única, originalíssima, daquelas que convencionamos chamar de “especiais”. Não importam as diferenças que lhes marquem a existência, mas o que podemos constatar é que tais pessoas apresentam necessidades de sobrevivência e desenvolvimento de fato especiais, no sentido de que demandam, para o pleno exercício de seu direito à vida, ao trabalho, à educação e à cidadania, de determinadas condições e cuidados. Como regra geral, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, tais condições e cuidados não estão disponíveis.
Se somos capazes de reconhecer a importância da sustentabilidade planetária, porque não conseguimos cuidar da insustentável leveza dos seres especiais, daqueles nossos irmãos que estão sofrendo aqui ao nosso lado, bem perto de nós, que estão sendo violentados em seus direitos mais elementares, a cada dia, todos os dias ? Porque não podemos cuidar da sustentabilidade de uma vida ?
De forma análoga, qual seria a equação de sustentabilidade para as pequenas organizações não-governamentais que se dedicam às pessoas portadoras de necessidades especiais? Essas organizações muitas vezes representam apenas um esforço local, profissional ou comunitário, de suplementação de uma lacuna deixada pelo estado. Esforço de porte insignificante frente aos mega-projetos capazes de promover retorno de mídia e reforço à imagem institucional de grandes empresas ou do próprio governo quando se dedicam ao exercício de sua responsabilidade social. No nível das pequenas organizações da sociedade civil organizada, incapazes de promover retorno de mídia ou gerar redução de impostos, recursos e patrocinadores não existem. De certo modo, podemos considerá-las “organizações especiais ou deficientes”, exatamente como as “pessoas especiais ou deficientes” a que se dedicam. Para ambas, sustentabilidade é um conceito muito distante.
Em nossa sociedade, onde os empreendimentos privados se vêm caracterizando pela busca e acumulação de lucros, de ativos e de eficiência, o próprio conceito de sustentabilidade tem encontrado sólidas resistências, atenuadas aqui e ali por incentivos fiscais ou por grande retornos e retoques em sua imagem institucional. Raras vezes se encontra o pleno exercício da responsabilidade social e ecológica que se possa chamar de “não-remunerado”. Lembro-me, a propósito, da perplexidade de um executivo de uma grande organização a respeito de uma ong sem fins lucrativos que cuidava de idosos: “Se você não pode implantar aí uma equação empresarial, é melhor fechar.” Isto é, se a dita ong não podia gerar seus próprios “lucros” e, portanto, sua sustentabilidade (no conceito daquele executivo), ela não deveria poder sobreviver, mesmo sendo uma instituição “sem fins lucrativos”.
Como cuidar, então, da insustentável leveza de um ser especial ?
O Equovida – Centro de Equoterapia e Qualidade de Vida (www.equovida.com.br), no Rio de Janeiro, é a opção que adotamos. Cuidamos de pessoas especiais com a ajuda de outros seres especiais: os cavalos. Dificilmente podemos oferecer retorno de mídia, embora nela tenhamos tido espaço, pelo próprio significado da atividade que desenvolvemos. Mas, em geral, não há espaço para divulgar nomes de eventuais patrocinadores. Incentivos fiscais ? Para nós assim como para milhares de outras organizações de nosso porte, praticamente impossível de oferecer. Mas, temos sobrevivido com galhardia, de forma auto-sustentada, há oito anos: isto é, aqueles nossos pacientes que podem pagar viabilizam o atendimento dos que não podem.
Diariamente, contribuímos para pequenas alegrias de conquistas gigantescas: um sorriso possível, um passo a mais, uma nova palavra que podemos entender. Desafios permanentes aos critérios de produtividade e eficiência que passamos tantos anos de nossas vidas tentando compreender e assimilar. Para poder agora descartá-los ante à leveza mais digna de vidas insustentáveis.
Diariamente, contribuímos para a sustentabilidade de nosso planeta.Sobre o Autor Amauri Solon Ribeiro é Psicólogo, Psicoterapeuta, Consultor do CPA - Centro de Psicologia Avançada e Diretor do Equovida – Centro de Equoterapia e Qualidade de Vida, no Rio de Janeiro. É membro do Conselho Técnico – Científico da Ande Brasil, Associação Nacional de Equoterapia.
Há 40 anos dedica-se às atividades de psicoterapia e consultoria organizacional. Sua orientação eclética, mas de base psicanalítica, complementada por sua passagem na área educacional, foram fatores de diferenciação tanto no mercado de consultoria quanto na atuação psicoterapêutica. Atualmente dedica-se ao CPA-Centro de Psicologia Avançada, no Rio de Janeiro (www.sheilasolon.com.br), mantendo seu consultório individual e dirigindo o Equovida – Centro de Equoterapia e Qualidade de Vida (www.equovida.com.br). Participou de grupos e trabalhos de formação em psicoterapia de orientação psicanalítica, existencial, bioenergética, análise transacional, laboratórios de sensibilidade e dinâmica de grupo. Tendo sempre se dedicado à equitação, há sete anos dedica-se à equoterapia, trabalhando com crianças especiais com auxílio do cavalo e de equipes multidisciplinares. Foi Diretor de Relações Comunitárias das Organizações Globo, onde atuou durante 8 anos, assessorando diretamente a presidência do grupo, de onde saiu em 1999. Nesse período foi “Fellow” do Aspen Institute, Aspen/Colorado (EUA) e membro do conselho do INEM – International Network for Environmental Management, sediado em Bonn, Alemanha. Dirigiu inúmeras organizações nas áreas social, educacional e de meio ambiente: foi presidente da Casa dos Artistas, do Instituto Brasil de Educação Ambiental e Superintendente do MOBRAL- Movimento Brasileiro de Alfabetização, entre outras. Foi professor de psicologia institucional na PUC do Rio de Janeiro. Foi psicólogo da APAE de Juiz de Fora/MG, onde também dirigiu outras clínicas de psicologia, neurologia e psiquiatria. Durante muitos anos dedicou-se à consultoria organizacional, tendo grandes empresas nacionais e multinacionais entre seus clientes: Petrobrás, Furnas, BNDES, Senac, Sebrae, Shell, Montreal Engenharia, etc.
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