Até onde a altura da minha ignorância me permite enxergar ainda não encontrei uma forma de representar ampla e profundamente toda a complexa simplicidade da essência da liderança conforme vivida por Jesus, de algo, porém não tenho qualquer dúvida, o quadro deve incluir a encarnação.
Mesmo tendo participado de tantos processos de transformação organizacional quantos me fizessem perder a conta, acompanhado ao vivo e em cores e estudado dezenas de outros casos de liderança, confesso que só recentemente percebi que a encarnação ou não dos líderes foi, é, e continuará sendo fator primordial que separa grandes sucessos de grandes fracassos. Agilidade, rapidez e comprometimento, de postergação, negligência e falta de compromisso.
Separa satisfação pela realização, da frustração pelo desperdício de tempo e esforços. Separa celebração de resultados, da busca desesperada de algum improvável sobrevivente do furacão que destruiu tudo por aqui. A distância astronômica entre o prazer do reconhecimento daqueles que nos levaram ao sucesso apesar das dificuldades do percurso, da caça às bruxas dos culpados por termos dado tantas voltas e não termos chegado a lugar nenhum.
Falemos, portanto do que estamos falando.
Estamos falando de um líder que faz parte e faz junto com os que fazem, não aquele que simplesmente espera que façam o que ele (já) disse (tantas e tantas vezes) o que tinha de ser feito.
Aquele que nem sequer imagina que mais profunda do que a incoerência do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” é a necessidade de saber o sabor do que o outro come antes de falar da sua fome, é saber o frio que o outro passa antes de falar de solidariedade, é a necessidade de sentir a dor, a solidão, a prisão e a sede do outro antes de falar de nossa compaixão por ele. De viver junto antes de falar de comunhão. De tirar a placa de vaga reservada antes de falar de igualdade.
Aqueles imersos na ilusão de uma liderança asséptica. Sem contato. Sem toque. Sem risco de contágio. Por controle remoto. À distância. Por vídeo conferência. Pelo telefone. Via internet. Por e-mail. Do púlpito. Da matriz. Das salas de reunião. No Second Life, nunca na vida real.
Os alimentados da ilusão de que o líder tem de ser diferente de nós para que nós o admiremos. Ser distante para que o sigamos. Parecer divino para que o adoremos.
Como nos ensinou Peter Drucker ao falar das pequenas baixas entre os generais na 1a. Guerra Mundial. Fruto da decisão de não mais acompanharem as tropas no campo de batalha. Exemplo histórico da liderança em que outros, não o líder, assumem os riscos e as conseqüências negativas pelo que for, ou não for, feito. Num discurso já padronizado para resultados e responsáveis: pela derrota, eles, pela vitória, eu.
Liderança, liderança mesmo, precisa-se aprender, é esvaziar-se do eu e encarnar a forma do outro, é sentir o que ele sente, é viver o que ele precisa, é dar de si para atender suas carências.
Não é uma viagem do pó da terra até as nuvens do Olimpo, mas da infinitude da Eternidade para a finitude da História. Não é livrar-se da brevidade da existência na frieza do mármore de estátuas, mas na trama eterna que as linhas da nossa biografia tece com as linhas da biografia do outro.
Jesus, o Filho, é Deus. Sempre. Sempre Senhor de tudo e de todas prerrogativas, mas ao contrário dos que almejam a primazia, o posto mais alto, o destaque, o primeiro lugar, fez o caminho inverso. Para nos liderar, se esvaziou.
Enquanto líderes se endeusam Ele se humanizou. Enquanto líderes se afastam Ele se aproximou. Enquanto eles se servem de nós, Ele nos serviu. Eles se isolam no último andar, Ele se deixou envolver por um útero adolescente. Enquanto eles se entronam em ouro, Ele se deitou no feno da manjedoura. Aqueles se cercam do brilho do luxo, Ele se cercou da pobreza dos mais pobres, da necessidade dos aflitos, da tristeza dos rejeitados, da escuridão dos cegos no corpo e no espírito.
Aqueles caminham suspensos sobre as cabeças dos mortais, Ele arrastou os pés pelo pó da terra, matéria prima do Seu e dos nossos corpos. Sendo Deus, fez de Si mesmo carne, para nos fazer eternos como Ele.
Aqueles se embriagam de sucesso, Ele se esvaiu no vinho de Seu sangue. Eles salvam a si mesmos sacrificando a todos que sujeitam. Ele sujeitou-se a salvar a todos pelo Seu sacrifício.
Liderança, liderança mesmo não é um processo de expansão do eu, mas de sua limitação. Não é a trajetória entre o desejo de ter poder até ter todo o poder, mas caminho inverso, entre o privilégio de poder até a decisão de servir.
_____________________________________________________________________________________
Eduardo Cupaiolo é palestrante e autor de Contrate Preguiçosos - Conselhos pouco ortodoxos que tornam o ambiente de trabalho mais humano e produtivo,lançamento nacional da Editora MC em 2006.
_____________________________________________________________________________________Sobre o Autor
- Palestrante. Especialista referenciado pela mídia especializada, Exame, Melhor - Gestão de Pessoas, Amanhã de Porto Alegre, Pequenas Empresas Grandes Negócios e Valor Econômico.
- Autor de Contrate Preguiçosos - Conselhos pouco ortodoxos que tornam o ambiente de trabalho mais humano e produtivo,lançamento nacional da Editora MC, 2006.
- Prêmio Areté de Literatura 2007 na categoria Autor Revelação.
- Artigos publicados nas revistas Amanhã, Melhor - Gestão de Pessoas, Sucesso e Conocimiento Y Direccion (Argentina). Nos jornais Diário do Commercio de Pernambuco, Diário Popular de Campinas. No CanalRH e inúmeros outros sites especializados na internet.
- Entrevistado por Heródoto Barbeiro no programa Mundo Corporativo da Radio CBN, por Alessandro Oliveira do Mercado Novo da Radiobras, por Rodrigo Cabrera no Espaço Democrático e César Romão na Rádio Mundial.
- Prêmio Personalidade de RH de 2007 da ABTD-PR.
- Fundador e Diretor-Presidente da PeopleSide – Human and Organizational Development.
- Mestrando no Master Program in Organizational Leadership da Azusa Pacific University, CA, USA.
- MBA pela Fundação Dom Cabral, com concentração em Gestão de Pessoas em programas conjuntos com Kellog University e Insead.
- Criador e professor dos programas People Based Leadership e Developing High Performance Teams da Robins School of Business da University of Richmond no Brasil entre 2002 e 2004 .
- Especialização em Liderança pelo Haggai Advanced Leadership Institute, Cingapura.
- Especialização em Gestão de Projetos de Transformação Organizacional nos Estados Unidos e Europa.
- Especialização em Change Management na ODR-USA.
- Gerente em projetos de consultoria no IBM Consulting Group e na Pricewaterhouse Coopers.
- Projetos de transformação organizacional em empresas líderes de mercado como: Abn-Amro Bank, Banco Sudameris, Cartão Nacional Visa, Embraer, Hoeschst Marion Russel, Metrus, Cimento Nassau, Telesp Celular e Votorantin Norte e Nordeste.
- Agraciado com IBM Engagement Excellent Award, Vancouver Canadá.
- IBM Certified Consultant pelo IBM Global Services, USA.
- Programas de desenvolvimento e seminários ministrados para executivos e gestores de algumas das mais importantes organizações do país: A. Angeloni e Cia., Banco Bilbao Viscaya, Banco Bradesco, Banco Itau, Compaq, De Biasi Auditores Independentes, Emhart Refal (Grupo Black & Decker), Ernst & Young Auditores Independentes, IBM Brasil, Koerich Telecom, Linces Vistorias, Litens Automotive, Masa da Amazônia, Metalúrgica Prada, Michael Page International, Monsanto, Oxford University Press, SAP, SENAI, Rapidão Cometa, Unilever e Vivo.
|