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Publicado em
2008-07-14

Soja, o futuro dos petiscos

Robson FernandoRobson Fernando
robfbms@hotmail.com
consciencia.blog.br/
A vida do vegetariano é dura na maioria dos recintos de alimentação, todo ele deve saber disso muito bem. E é mais ainda em bares e praias. Nos primeiros, os únicos itens do cardápio oferecido que não possuem qualquer ingrediente de origem animal são as bebidas e, com muita sorte, a batata-frita – e esta ainda tem que vir sem a possível borrifada prévia de queijo ralado. Já na praia, salvo o amendoim e as bebidas, é um motivo de aflição o vaivém de um sem-número de vendedores expondo os mais variados e infames “alimentos”: cachorros-quentes, camarões, ostras, caranguejos (às vezes vendidos ainda vivos, ressaltemos), ovos de codorna, caldinhos contendo carne, espetinhos com carnes e queijos, arrumadinhos, raspa-raspas com corante de cochonilha, picolés com ingredientes de leite ou cochonilha... Para o pertencente à “geração saúde”, a fome nesses lugares é quase certa se não depender da água e do amendoim que nem sempre aparece ou de comida trazida de casa. Mas felizmente essa realidade pode estar com os anos contados, uma vez que a soja está cada vez mais em evidência na gastronomia e seus derivados têm tudo para fazer muito sucesso a partir da próxima década.

Que o diga a maioria de quem já experimentou a Proteína Texturizada de Soja (PTS). Vendida a preços muito bons (meio quilo costuma custar menos de 3 reais em supermercados e lojinhas de produtos naturais), disposta em variedades como clara, escura, grãos pequenos, médios e ”xadrez” e aprovada até mesmo por muitos que ainda não admitem uma vida sem carne, essa promete ser o novo xodó em poucos anos, uma vez que tenha a divulgação merecida. É a primeira comida que vem à mente da maioria dos vegetarianos quando lhes é perguntado qual item vegetal serviria melhor para um petisco ético. Esse gosto, vegetariano ou não, em ascensão junta-se a vários fatores de contexto para ter grande probabilidade de entrar no cardápio de bar e praia num futuro próximo:
a) A elevação do número de vegetarianos: é certo que muitos entraram na onda apenas com propósitos de saúde ou modismo, mas também o é o fato de que a ética que zela pela vida dos animais e almeja livrá-los do sofrimento, violência e extermínio industrial infligidos pelo ser humano está em franco crescimento. Soma-se a ela a preocupação com o meio ambiente em que a pecuária tão gigantescamente pesa – inclua-se o exemplo de que cada quilo de carne bovina requer múltiplas vezes mais água e terreno rural do que a mesma medida de qualquer vegetal comestível –, o qual também está sendo fundamental nessa ascensão, vistos os problemas do aquecimento global e do desmatamento. A soja, entre os produtos agrícolas cultivados em grande escala, é o principal e melhor substituto da carne nas refeições, fornece uma grande variedade de derivados e a PTS na maioria de suas formas é quase uma carne – podendo inclusive tomar a forma de hambúrguer ou lingüiça –, mas com a peculiaridade, magnamente valorizada pelo vegetariano, de que não tem sua origem na violência, dor e morte impostas a animais.
b) Preocupações populares crescentes com a saúde, boa forma e longevidade: muitos nutricionistas associam a soja ao bem-estar, à boa saúde, à vida longa, e isso está impulsionando muitos ao consumo de produtos feitos desse cereal. Têm razão esses nutricionistas, mas é relevante e importante o fato de que muitos deles deixam a observação de que não é qualquer soja que pode ser deliberadamente consumida, devido à presença de antinutrientes na soja bruta os quais são removidos nos processamentos mais bem elaborados de produção dos derivados. Esse impulso da “geração saúde” a favor da soja também é decisivo para o aumento do consumo e para a potencial expansão à seção de petiscos e refeições de bares e restaurantes.
c) A alta dos alimentos: a carne está ganhando um novo inconveniente para acompanhar a antiética e morbidez de seu consumo: a inflação. Atualmente muitas carnes outrora baratas já passam dos R$10 por quilo – felizmente, ressaltemos. Em contrapartida, a soja vinda da agricultura minifundiária, devido ao gradual crescimento na concorrência entre empresas produtoras de derivados, não subiu tanto, e até alguns produtos caíram de preço, como a farofa de soja de alguns estabelecimentos. É outro fator muito estimulante para a alta do consumo sojívoro. É certo que produtos como leite de soja, tofu e farofa ainda são caros e difíceis de ser encontrados, mas é questão de tempo que esses problemas diminuam o máximo possível com a expansão de seu mercado.

Outra facilidade peculiar desse produto é que a matéria-prima pode ser convertida nas mais diferentes espécies de alimentos: “carne” refogada, almôndega, hambúrguer, salsicha, kibe, farofa, queijo (tofu), leite, iogurte, creme de leite vegetal, componente de macarrões e pães ao lado do trigo... Só falta ainda o ovo mesmo. Tudo isso, que poucos imaginariam existir sem a crueldade dos matadouros, granjas e ordenhas industriais, mostra que a soja é uma quase-panacéia que possibilitará a existência e sustentação de um mundo vegetariano num futuro em que o mal chamado pecuária for erradicado. Para bares dos mais variados lugares e vendedores ambulantes de praias, fazem-se ideais, como num encaixe perfeito, produtos como espetinho de PTS ou de tofu, coxinha vegana de PTS, pastel vegano de PTS, arrumadinho com PTS, cachorro-quente de salsicha vegetal, almôndega... Falta de variedade é uma desculpa definitivamente inválida para quem ainda desdenha do poder da soja como o futuro novo integrante do elenco de comidas de praia ou bar. Custo pode ainda ser um motivo válido hoje, mas consideremos que o mercado consumidor sojívoro está em incontestável ascensão e os preços devem cair quanto mais demanda e marcas forem aparecendo. Até o momento, apenas o preço ainda fora do módico – relevemos a exceção da PTS, cujo meio quilo, repito, costuma custar menos de 3 reais em lojas especializadas – e o preconceito da maioria dos onívoros em relação a esses quitutes vegetais, expressado quando se pré-concebe que “são ruins” sem a pessoa sequer ter experimentado só pelo caráter ainda exótico e estranho deles, são fatores que inibem a iniciativa de trazer as saudáveis delícias sojeiras para os cardápios dos bares e os espetos de madeira dos vendedores ambulantes de praia.

Pode você pensar nessa pergunta: “tá certo, suponhamos que a soja conquiste bares e praias. Mas e aí, de onde vai se tirar tantos grãos? Da Amazônia?” Felizmente tenho uma resposta confortante sobre soluções agrícolas para a ascensão do consumo humano da tal. Primeiro, lembremos que a imensa maioria da soja plantada nos criminosamente desmatadores latifúndios amazônicos e de cerrado é destinada à exportação – principalmente em forma de forragem para gado e galináceos –, à produção de biodiesel e ao mercado interno de óleo de cozinha. Apenas algumas certas gigantes de agronegócio – que, por questão de consumo consciente, devem ser enfaticamente evitadas até definirem uma política ambiental aceitável – começaram recentemente a aproveitar uma pequena porção da colheita dessas plantações para a fabricação de PTS. A quase totalidade da NOSSA soja (caixa-alta proposital) vem de agricultura familiar ou de minifúndios que se preocupam em abastecer o mercado interno. E segundo, muito, mas muito mesmo, das áreas desmatadas ou modificadas pelo homem é pasto para gados de pecuária extensiva. Uma vez que, algum dia em que a pecuária for declarada tão ilegal como a escravidão humana e a atividade de seus pastos e matadouros cessar, o reflorestamento total dos mesmos é uma utopia incompatível com a realidade sócio-econômica que provavelmente requererá mais áreas agriculturáveis para a demanda maior de vegetais, grande parte dos antigos campos pecuários poderia ter o solo reformado por processos antrópicos de geologia, fertilizado e utilizado no plantio da soja e de outros produtos agrícolas – e a outra parte, reflorestada, enfatize-se. Assim haveria PTS, tofu, etc. para todos que quisessem comê-los nos bares, restaurantes, praias, cantinas e carrinhos de sanduíche.

É mera questão de tempo e divulgação até que a soja passe a ser a nova menina-dos-olhos de bares, ambulantes de praia e outros recintos que ofereçam comida. É também um desafio que aos vegetarianos é imposto: se quisermos acabar com a rotina vexaminosa de passar fome nesses lugares e enfim termos neles o que comer, façamos a divulgação da culinária sojívora. Para os consumidores onívoros de mente mais aberta às questões de saúde, meio ambiente e direitos dos animais, ressaltemos as várias vertentes da necessidade de haver essa opção vegetal de refeição nos recantos de happy-hour. Para gente ignorante e reacionária e para proprietários de estabelecimentos assim, saibamos conter os impulsos de protesto, retirar por um momento a armadura de guerreiro pelos animais, falar a língua deles e ressaltar o lado gustativo dos derivados sojeiros, a delícia de seu gosto e a boa variedade no paladar proporcionado pelos produtos vindos do cereal. Façamos como o mestre de relações humanas Dale Carnegie ensinou: evitemos discussão, comecemos amigavelmente, sejamos empáticos e falemos nos termos do interesse daqueles que queremos convencer a experimentar soja. É com esse esforço mais as propagandas na mídia que os vegetarianos, ovolactistas e outros inimigos da carne enfim terão o que comer naquela reunião com os velhos amigos e na praia do fim de semana. Nossos estômagos e os bichos agradecerão.

Sobre o Autor

É escritor independente de artigos, apaixonado por sociologia e dono do blog Arauto da Consciência. Escreve artigos desde setembro de 2007.


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Camilla Sanches


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