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Publicado em
2008-06-07

"Música" nordestina do mal

Robson FernandoRobson Fernando
robfbms@hotmail.com
consciencia.blog.br/
“Beber, cair e levantar”. “Chupa, chupa, chupa que é de uva”, “Toma gostosa, lapada na rachada”... Quem nunca ouviu ao menos quatro desses refrões ou não mora em cidades nordestinas ou vive como bicho-do-mato há muito tempo. Ultrapassando todos os limites da tolerância musical e do bom senso, músicas(?) como as que portam esses bordões terminaram fazendo (cocô n)a cabeça de uma metade da juventude e a irritação da outra metade. Uma verdadeira horda musical com dezenas de bandas de “forró” estilizado está incendiando (no mau sentido) o estilo de vida de muitos jovens e despertando polvorosa nos fãs do forró legítimo e decente e naqueles que não queriam ver a música como instrumento de corrupção cultural.

A verdade é que alguns estilos musicais tornaram-se nos últimos anos verdadeiras hordas de imundície cultural trazendo o que há de mais pernicioso e imundo para a já combalida mentalidade juvenil das principais cidades nordestinas. Entre os estilos, destaco aqui no artigo aquilo que chamam de “forró” estilizado e que eu prefiro chamar de “Ritmo Nordestino Estilizado Imundo” (RINEI), visto que dificilmente usam algum instrumento forrozeiro original (como sanfona) e não fazem jus a pertencer ao mesmo tronco musical do forró cultural, o qual eu respeito profundamente. Quando analisamos as letras, passamos a ter uma idéia de como essas “músicas” estão desviando a juventude para um hedonismo autodestrutivo e irresponsável de forma tão bem-sucedida. É de fazer um cristão de igreja dizer “esses ‘forrozeiros’ vieram do inferno!”. Abaixo digo cada uma das características que fazem do RINEI a nojeira anticultural que é, aspectos que fazem parte da maioria das letras (não todas) que marcam o estilo atualmente.

1. Pornofonia (pornografia transmitida pela música): ao lado da “alcoolmania”, é uma das duas características sujas mais freqüentes no RINEI. Quem trabalha e/ou estuda fica obrigado pelos carros com som possante a ouvir os mais diversos apelos eróticos nas músicas. Os exemplos mais em voga podem ser lembrados por bordões e expressões como “chupa, chupa, chupa que é de uva”, “caminhão de prostitutas” (na verdade o termo certo é outro), “tome, tome, tome/ tome, tome, tome”, “lapada na rachada“. A pornografia em tais expressões ora pode ser camuflada com alguma palavra de duplo sentido ora pode aparecer explícita e escancarada. E há também os gemidos de vocalistas femininas em algumas “músicas”. Refrões sexuais e gemidos eróticos são convites óbvios aos jovens de hormônios exaltados para o sexo – tristemente o sexo irresponsável, aquele mesmo que engravida adolescentes e propaga doenças sexualmente transmissíveis. Depois reclamam que a gravidez juvenil, os abortos clandestinos e a transmissão de DSTs estão explodindo pela região. Sem falar também na corrupção de mentes mais suscetíveis cujos donos se tornam devassos em seu comportamento, brincadeiras e relações com colegas e quase que só pensam em sexo em certos momentos, mesmo quando falam com quem odeia o RINEI.

2. Apelo erótico visual em shows: Vocalistas e dançarinas de RINEI, sempre com corpos “gostosos”, ajudam no apelo erótico de suas “músicas” trajando shortinhos minúsculos, microssaias e tops que cobrem apenas os bicos dos seios, dançando como num ritual de sedução e acasalamento e, em casos mais rudes, esfregando-se nos homens companheiros da banda que está tocando. Tem o mesmo intuito de incitar o tesão e a ferveção por sexo na platéia, com as mesmas conseqüências ditas acima.

3. Exaltação da prostituição: Primeiro, não tenho nada contra a prostituição e respeito quem gosta, mas um pouco de empatia vai nos mostrar que nem todos os nordestinos admiram que se toque som alto exaltando o que muitos consideram uma imoralidade e afronta à decência. Nem todo mundo é obrigado a achar bom que o carro saia por aí tocando sobre o “caminhão de prostitutas” ou mandando o cabaré “pegar fogo”. Pra muitos, especialmente religiosos, prostituição é indecência e desrespeito, e essas pessoas não têm o dever de engolir o que acham pecaminoso e/ou imoral. Segundo, note que o RINEI explora sempre a prostituição feminina, jamais a masculina, em letras que agradam apenas aos rapazes e excluem garotas que são também fãs de tal ritmo e que gostariam de pensar em prostitutos. Um claro ato de machismo vindo de bandas imorais e misóginas, ponto que abordo logo abaixo.

4. Misoginia, redução da mulher a objeto sexual: Anda de mãos dadas com a pornofonia e o apelo prostitucional. As mulheres, mesmo sem serem prostitutas, em muitas letras, são reduzidas a concubinas de sexo dos “garanhões” homenageados, como sendo “cachorrinhas” ou outros termos. Repito o fato de que a prostituição exaltada nas letras é sempre a feminina. Além disso, as mulheres são sempre a “carga” da caminhonete do estilizeiro (“forrozeiro” estilizado), nunca, mas nunca mesmo, o contrário. Lembremos da História Antiga, marcada pela redução de inúmeras mulheres a propriedades sexuais de função reprodutiva – sendo o termo “concubinas” um eufemismo – da nobreza, e comparemos com o que o RINEI exalta hoje. A conclusão é que o que chamam de “forró” estilizado consegue ser mais ou menos pior do que aquela época, pois, se outrora as concubinas eram escravas que serviam de adorno sexual e eram mantidas juntas ao nobre até a morte dele, hoje as mulheres adornam por livre vontade o “catador de minas” e, sendo livres, são descartadas por ele, não sendo raro que a gravidez apareça como conseqüência, muitas vezes com a renegação do filho indesejado pelo que se fez pai biológico.

5. Machismo, exaltação do “garanhão” que “cata todas”: Quem usa mais garotas como objetos de adorno tem sua “classe” homenageada pelas letras do estilizado. Reitera-se a coisificação do lado feminino e nota-se o supremacismo masculino. A cultura de o homem ser o maioral com todo o direito sobre as mulheres e estas deverem ser passivas em tudo é perpetuada em tempos de estágio avançado de evolução da afirmação feminina. Como conseqüência, uma discriminação bárbara se propaga: ai de quem quiser imitar o homem – que é visto como garanhão, garantido, machão, gostosão, etc. – e procurar vários rapazes para “catar”: ao contrário do “pegador” glorificado, a “pegadora” será vista como vagabunda, devassa e outros termos impróprios para este artigo.

6. Infidelidade e traição: Outras constantes nas letras do RINEI, fazem parte do ritual hedonista seguido pela maioria dos estilizeiros nos shows. Gente com namorado(a) muito freqüentemente é vista “corneando” o(a) parceiro(a) nas ficadas pelos shows, às escondidas dele(a), até porque dificilmente um casal vai junto para tais eventos. Não há estatística disponível para isso, mas a realidade ensina que uma parte no mínimo muito significativa de apreciadores assíduos do ritmo já traiu mais de uma vez. Fidelidade? O que é isso? O negócio é beber, catar e rap...gar! E falando em beber...

7. Exaltação do álcool: Cerveja e cachaça são as bebidas sagradas de quem adora o RINEI. A ordem, mais explícita impossível, é beber até se embriagar, não importa as conseqüências. Só para se ter uma idéia, duas das “músicas” mais tocadas nos últimos meses nas capitais nordestinas são intituladas “Beber, cair e levantar” e “Piri-piri, vamo[sic] beber”. Quem sai ganhando com essa safadeza são as fabricantes de bebidas alcoólicas e os donos de bares. E depois aparecem não sei quantas estatísticas atentando ao aumento dos acidentes envolvendo motoristas embriagados e ao da violência doméstica protagonizada por bêbados violentos. Até o momento, o placar RINEI x Ética e Responsabilidade está em 7 a 0 para a música maldita.

8. Apologia às vaquejadas: Começo definindo, para quem não conhece, essa barbárie chamada vaquejada: explícito espetáculo de sadismo humano contra animais, em que vaqueiros, ignorantes e sem nenhum pingo de compaixão por seres dotados de movimento que não sejam humanos, se divertem perseguindo e derrubando violentamente bois desesperados e golpeando seus cavalos com esporas em forma de moedas. Os estilizeiros mandam o respeito aos animais e a Lei de Crimes Ambientais às favas e, lotando os shows de “música” – encabeçados adivinhem por quem... por bandas de RINEI! – que sucedem os de horror e violência lotam os cofres dos diabólicos organizadores de vaquejadas, donos das arenas e pecuaristas que cedem seus animais escravos a esses fatídicos eventos. Além do fato de que uma quantidade razoável de “canções” desse ritmo exalta a brutalidade e insanidade travestidas de “cultura”, “vigor” e “virilidade”. RINEI 8 x 0 Ética e Responsabilidade.

Goleada acachapante sobre a moralidade e o respeito. Os “torcedores” do “time” vencedor saem do estádio e, como hordas de Mongóis embriagados, aniquilam selvagemmente tudo o que vêem pela frente: famílias, namoros, casamentos, juventude, saúde, dignidade, amor, respeito...

Juntando os cacos da devastação, podemos relatar muitos estragos, contabilizados ou não: perda de vidas humanas e de carros por bêbados que dirigiam, famílias arrasadas por jovens embriagados, namoros e casamentos destruídos por quem fez da “traição rápida” uma rotina, danos materiais por bêbados vândalos, animais seriamente feridos e atordoados por vaqueiros, mortes em clínicas clandestinas de aborto e, no caso de quem não abortou, nascimento de inúmeras crianças fadadas a uma vida infeliz por terem sido indesejadas. Além de tudo, a cultura juvenil do Nordeste também sofre severas feridas e hematomas, com a corrupção de inúmeros valores morais, a devastação da reputação do Forró nordestino propriamente dito e a propagação de uma poderosa alienação cultural em pessoas de mentalidade fraca que se deixam influenciar pela aberração do RINEI.

Há sim, entretanto, apesar de tamanho potencial destrutivo, jovens que apreciam a nojeira mas em pouco ou nada se deixam influenciar por ela. São pessoas de cabeça feita, de mentalidade mais consolidada. Mas é uma pena que seja uma minoria dos estilizeiros difícil de se encontrar, uma vez que é imensa a quantidade destes que no mínimo bebem muito nos “forrós”. É quase impossível achar um fã do ritmo estilizado que não beba nem traia nem encha os cofres de vaquejadas – resumindo, não leve nem um pouco “a sério” as abomináveis letras daquilo –, porque quem não tem nenhum desses hábitos não está no público-alvo dos músicos irresponsáveis.

Uma pessoa de ideologia autoritária defenderia a censura imediata do RINEI, mas, como eu não sou dessa laia, não o faço. Seriam de bom grado, no entanto, medidas que visassem disciplinar essa libertinagem e irresponsabilidade que insistem em querer “estuprar” a cultura e os ouvidos de quem odeia o ritmo e suas letras imundas, tais como proibição de menores de 18 anos em shows que tenham pelo menos uma banda de baixaria renomada e lançamento de uma associação musical de bandas voluntárias que visasse o estímulo à decência e desencorajamento da libertinagem de letras. Só algo do tipo, ou a consolidação da decadência do gênero, que ainda deve demorar alguns anos para acontecer, pode deter a horda anticultural diabólica do Ritmo Nordestino Estilizado Imundo, chamado vulgarmente de “‘forró’ estilizado”, e iniciar uma reconstrução cultural da parte da juventude que se corrompeu. E coitado do Forró verdadeiro, que canta o amor, o sertão e as belezas da vida, que tem que ver sua nêmese regional roubar o seu nome “forró” e ocupar a hegemonia de todos os redutos de civilização onde o ritmo decente, acompanhado de bandas de leve estilização ainda respeitáveis, predominava.

Sobre o Autor

É escritor independente de artigos, apaixonado por sociologia e dono do blog Arauto da Consciência. Escreve artigos desde setembro de 2007.


Comentários (5)
porYuukaru, junho 7, 2008
Robson, eu realmente gostei do artigo, bem escrito, bem elaborado e bem objetivo. Seu artigo está totalmente de parabéns pois não teve rodeio e chegou no ponto que eu esperava. Mantenha a sua forma de escrever nesse nivel pois assim você terá futuro.
porAntonio Lucas Vitorino de Sousa, junho 7, 2008
1 de 1 pessoas acharam esta avaliação útil
O seu artigo está otimo!!! Eu concordo com você, essas "músicas" não tem nada haver com forró. Mas naquela parte aonde você fala: um padre disse que esses forrozeiros vieram do inferno. Você não acha que está precipitando um pouco, de repente algum desses forrozeiros ouve fala desse artigo e talvez ele pode até te processar.
Resposta do autor

hauahuahuahua Onde você viu esse trecho no artigo?

porAndré Luís Miranda, julho 3, 2008
Olá, Robson!
Parabéns pelo artigo direto, sincero e necessário. Sim! Necessário porque precisa-se, mais que urgentemente, curar a música brasileira, especialmente a Nordestina, tão outrora rica, mas agora assassinada aos poucos (e por muitos). Peço a você, se possível, que eu possa usar seu artigo, divulgá-lo. ABRAÇO!
Resposta do autor

André, desculpe o atraso. Este site não avisa quando comentários novos chegam nos meus artigos, por isso só hoje eu pude tomar conhecimento de seu comentário. Sobre seu pedido, autorizo com todo prazer! Abs

porfab io, julho 22, 2008
concordo com vc, estao acabando com o forro tradicional de luiz gonzaga, dominguinhos e uma vergonha estas bandas tipo avioes do forro, calcinha preta são a mesma coisa tocam musicas com letras pornograficas e tambem apologia a cachaça, alem de serem desonestos tocam musicas dos outros e não pagam direitos autorais, esta na hora da sociedade exigir moralidade preservando a sociedade destas bestialidades e tirarem por meio de uma lei estes pornograficos e imundos do forro e ficarem proibidos de se apresentarem em meios de televisão e radios.
porTânia, julho 25, 2009
Oi Robson,

Pois é, é lamentável o desleixo na elaboração de algumas letras que temos ouvido! O que não diria Jackson do Pandeiro, ou nosso mais recente e saudoso Luiz Gonzaga, e tantos outros compositores não citados. Por isso me orgulho deles, pois souberam representar bem a verdadeira cultura nordestina!
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Thaís Petroff Garcia


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