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Teoria Lógica dos Signos
TEORIA LÓGICA DOS SIGNOS
(*) NELSON VALENTE
Apresentação:
O mundo é linguagem !
Já faz anos que exploro o mundo dos códigos e dos signos pelo estudo da linguagem, da comunicação, da psicanálise, do saber e de muitas outras formas. No entanto, nunca defini meu objeto ! Porque cada linguagem propõe um paradigma de mundo diferente.
Quando jovem , meu professor de Semiótica, Naief Sàfady afirmou:
- Nascemos apenas com uma idéia na cabeça e não fazemos outra coisa senão desenvolvê-la ao longo de toda a nossa existência. Disse para mim mesmo:
- Será, então, que não é possível que haja uma mudança de vida ? Que reacionário ! Perto dos 57 anos de idade, entendi que meu professor tinha razão: de fato, durante toda a minha vida persegui tão-somente uma única idéia. O único problema é que não sei que idéia é essa !
Creio que estou chegando lá. De tanto me dedicar à semiologia, estou cada vez mais convencido da possibilidade de que o mundo não existe, de que ele nada mais é do que um produto da linguagem.
Houve momentos, no decorrer do século passado, que a filosofia se recusou a falar do mental sob o pretexto de que não podia vê-lo.
Hoje em dia, com as ciências cognitivas, as questões do conhecimento - o que quer dizer conhecer, perceber, aprender ? - tornaram-se centrais. Os progressos da ciência permitem tocar naquilo que antigamente era invisível, o que obriga a Semiótica questionar: como é que a linguagem estrutura a percepção que temos das coisas ?
Nem sempre foi esse o caso. A linguagem de Pascal ou de Descartes é simples e corriqueira. O próprio Bergson que trabalha com conceitos difíceis,fala sem tecnicismos. Na segunda metade do século passado, as coisas mudaram. Por que o francês de Lacan parece difícil ? Porque sua sintaxe não é francesa, é alemã ! De fato, nos anos 60 houve uma verdadeira invasão alemã na filosofia francesa. Daí a ruptura entres os dois continentes. Isso criou uma barreira enorme entre a filosofia insular e a continental. Os anglo-saxões, Locke e Berkeley, falam como todo mundo. Wittgenstein, quando começou a pensar em inglês, utilizava uma linguagem simples. Eis a razão por que os americanos gostam tanto de Gramsci - porque ele não se valia do jargão alemão - e por isso eles não se deixaram contaminar pela fenomenologia, por Heidegger, que lhes é incompreensível. Todavia , cederam diante dos franceses germanizados, que influenciaram sua literatura e, depois, sua filosofia. Já é difícil traduzir Lacan em “francês”, imagine em inglês ! No Brasil também aconteceu a mesma coisa: basta que um termo seja alemão para que seja considerado com seriedade.
A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. Pode-se, quando muito, influenciar o uso. É uma função dos jornalistas, escritores e da mídia. Um bom uso mostra-se pela flexibilidade com que as palavras são aceitas. Todas as línguas estão repletas de palavras estrangeiras que foram naturalizadas.
Os jornais brasileiros (alguns) nos dizem com freqüência que Michael Schumacher, da Fórmula I - pegou a “pole position”, um termo inglês inútil, pois pode dizer perfeitamente que chegou em primeiro lugar ou qualquer coisa parecida. Certa vez, li num jornal que Schumacher, tinha conseguido a “pool position”. Ele devia estar, então, na piscina!
Hoje em dia, as pessoas falam sua língua nativa mais corretamente, lêem mais jornais, mais livros. Isso não significa que a humanidade esteja melhorando e tampouco quer dizer que há menos banalidades, esterótipos e bobagens.
Os editores, os donos de televisão, jornais e os críticos literários não entenderam que houve uma revolução espiritual, que o nível geral subiu.
Os franceses fazem de conta que brigam com o inglês, mas têm medo mesmo é do alemão. Desde a queda de Berlim, a Europa do Leste transformou-se num bolsão de poliglotismo alemão e há muita probabilidade de que o alemão se imponha na Europa! Nunca, no mundo, alguém conseguiu impor a língua estrangeira dominante. Os romanos foram mestres do mundo, mas seus eruditos conversavam em grego entre si. O latim se tornou a língua européia quando o império romano desmoronou. No tempo de Montaigne, o italiano era o vetor da cultura. Depois, durante três séculos, o francês foi a língua da diplomacia. Por que o inglês, hoje? Porque os Estados Unidos ganharam a guerra e porque é mais fácil falar mal o inglês do que falar mal o francês ou o alemão. O que não impede que os franceses falem de uma “colonização” de sua língua pelo inglês
O Autor
CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914)
Para este pensador, um signo:
“é aquilo que representa alguma coisa para alguém, sob determinado prisma”.
A coisa representada denomina-a objeto.
CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914), pensador norte-americano, instituidor do pragmatismo como método de conhecimento, manteve relações intelectuais com todos os filósofos importantes de seu momento histórico – dentre eles: William James, Henry James, John Dewey, Gottlob Frege, Bertrand Russell.
Não realizou carreira universitária, e seus textos foram publicados esparsamente, reunidos pós-morte.
A posição pragmática (espécie de versão neopositivista mais avançada) consiste no método para a determinação de significados, concebidos como produtos factíveis.
O pragmatismo não se propõe, com Peirce, como filosofia. Seu estamento é de recurso para o pensamento filosófico, instrumento para o que-fazer filosofante.
Algumas constantes na metodologia peirceana.
Sua estrutura de raciocínio e demonstração apóia-se sempre em relações triádicas. Nisso, deriva direta sugestão da dialética hegeliana (tese, antítese, síntese).
Todo significado parte de uma hipótese, a que se segue uma operação – que vai até uma experimentação (ou mesmo um resultado).
O objeto é conhecido e diferenciado pelas conseqüências práticas que acarreta e pelos fatos em que resulta.
A concepção de um objeto equivale à concepção de como funciona ou do que pode realizar. Tal a proposição pragmática, da metodologia de C. S. Peirce.
Três são os elementos lógicos que permitem a decifração dos fenômenos, ou sua conceituação: PRIMEIRIDADE, SEGUNDIDADE e TERCEIRIDADE.
Esse sistema triádico identifica as categorias lógicas para C. S. Peirce.
PRIMEIRIDADE é uma qualidade sensitiva, ou sensação percebida (um orgasmo, um soluço, por exemplo). Resume-se na idéia daquilo que independe de algo mais. A primeiridade caracteriza os fenômenos singulares, idiossincráticos, excludentes. Os sentimentos ou as qualidades puras incluem-se na categoria das primeiridades.
SEGUNDIDADE é reação, resposta. Existindo um duplo termo, nas quais uma coisa acontece à outra. O nome de uma coisa ou fato é uma relação de duplo termo. Assim, a percepção sensível que permite conhecer os eventos ou sua mudança (troca de estado, troca de posição, referencial) – constitui-se na categoria lógica da segundidade.
TERCEIRIDADE é representação. A idéia que se faz de um terceiro, entre um segundo e um primeiro; uma ponte entre dois termos ou elementos. A terceiridade predomina na generalidade, na continuidade que permite, por exemplo, a elaboração de leis. Toda lei depende de um referencial (primeiro e segundo), de que ela é o terceiro. O signo, segundo Peirce, é a idéia mais simples da terceiridade.
SIGNO – segundo Charles Sanders Peirce, é aquilo que representa alguma coisa para alguém, sob determinado prisma. A coisa representada denomina-a objeto.
O primeiro signo denomina-se REPRESENTAMEN. Cria na mente da pessoa, o qual é direcionado como emissão, um signo equivalente a si próprio.
A flor que existe no mundo independe de minha vontade. A palavra flor (ou flower, ou fleur, ou fiore) é um signo gerado pelo primeiro signo que é a flor.
Esse outro signo, mais desenvolvido que o representamen, denomina-o Peirce interpretante.
Decorre nova relação triádica – signo / objeto / interpretante, como abaixo:
INTERPRETANTE
SIGNO OBJETO
Entre signo-interpretante e interpretante-objeto, as relações são causais. Já entre signo e objeto não há relação de pertinência, porque arbitrária. O signo não pertence ao objeto, o objeto não pertence ao signo.
Decorre que o interpretante passa a funcionar como a chave da relação (inexistente) signo e objeto.
As três entidades formam a relação triádica do signo.
Peirce configura a palavra signo numa acepção muito larga e elástica. Pode ser uma palavra, uma ação, um pensamento ou qualquer coisa que admita um interpretante, com o qual mantém uma relação de duplo termo.
A partir de um interpretante, e por causa dele, torna-se possível um signo.
Nem interpretante, nem signo, estão contidos na primeiridade ou na segundidade. Como categoria lógica, ambos incluem-se na terceiridade.
Peirce concebe os signos em três divisões amplas: ÍCONE, ÍNDICE e SÍMBOLO.
A partir da exemplificação abaixo, a indução dos conceitos.
Assim: a impressão digital na carteira de identidade (ÍCONE), a impressão digital do ladrão (ÍNDICE) ou a impressão digital, como símbolo de campanha a favor da alfabetização (SÍMBOLO).
ÍCONE é um signo que é uma imagem. Caracteriza-se por uma associação de semelhança, independe do objeto que lhe deu origem, quer se trata de coisa real ou inexistente.
ÍNDICE é um signo que é um indicador. Relaciona-se efetivamente com o objeto, por contigüidade. Aquilo que desperta a atenção num objeto, num fato, é seu índice. Permite, por via de conseqüência, a contigüidade entre duas experiências ou duas porções de uma mesma experiência.
SÍMBOLO é o signo que é uma abstração de um concreto. Refere-se ao objeto que denota em virtude de uma lei, e, portanto, é arbitrário e convencionado. A possível conexão entre significado e significante não depende da presença (ou ausência) de alguma similitude. Enquanto o índice define contigüidade, o símbolo, não. Fundamental no signo que é um símbolo incide em seu caráter definitivamente convencional.
Essa é a divisão triádica dos signos, segundo Peirce.
O signo apresenta, ainda três sub-categorias básicas. A partir dessa nova proposição triádica, C. S. Peirce concebe que todo o signo, em si próprio, pode ser 1) mera qualidade; 2) existência concreta; ou 3) lei geral.
QUALI-SIGNO é todo signo que é uma qualidade. Como tal, semanticamente, um determinante. O azul é um determinante (qualidade) de cor.
SIN-SIGNO é todo o signo que é uma coisa existente, um acontecimento real. Em princípio, envolve vários quali-signos (ou permite vários determinantes). O vermelho é soma dos quali-signos de vermelho (que é uma cor, que é sinal de proibição, que é sinal de alerta, que é sinal de perigo). O vermelho é o signo de si próprio (sin-signo), somatório de todos os quali-signos de vermelho. Uma palavra, como tal é seu sin-signo.
LEGI-SIGNO é o signo que é uma lei. O vermelho como pare, na codificação visual das leis de trânsito, é um legi-signo. Contudo, inexiste legi-signo sem sin-signos prévios. O vermelho existe antes como sin-signo, antes de ser uma lei de trânsito.
LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951)
Para Wittgenstein (como para os pragmáticos) todo signo é arbitrário, o que deflagra a subseqüência dos elementos arbitrários que dele derivam. Daí, duas asserções importantes:
“Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo”. De que decorre: “Para uma resposta inexprimível é inexprimível a pergunta”.
“O que não se pode falar, deve-se calar”.
LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951), pensador alemão, graduado em Lógica e Filosofia pela Universidade Britânica de Cambridge, era também engenheiro pela Universidade de Berlim. Envolveu-se em todos os procedimentos da lógica matemática e da lógica simbólica (Bertrand Russel) e sempre se dedicou a pesquisas de lógica semântica.
Seu texto básico é o Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921. O livro pretende estabelecer como próprio limite do pensar a língua.
Wittgenstein ponderou o valor de seus conceitos no Tractatus, numerando-os de acordo com seu peso lógico. Dessa ponderação resultam sete conceitos básicos no Tractatus:
O MUNDO É TUDO QUE OCORRE (1);
O QUE OCORRE, O FATO, É O SUBSISTIR DOS ESTADOS DAS COISAS (2);
O PENSAMENTO É A FIGURAÇÃO LÓGICA DOS FATOS (3);
O PENSAMENTO É A PROPOSIÇÃO SIGNIFICATIVA (4);
A PROPOSIÇÃO É UMA FUNÇÃO DE VERDADE DAS PROPOSIÇÕES ELEMENTARES (5);
A FORMA GERAL DA FUNÇÃO DE VERDADE É
ESTA É A FORMA GERAL DA PROPOSIÇÃO (6); e
O QUE NÃO SE PODE FALAR, DEVE-SE CALAR (7).
Os números indicados à direita dos conceitos acima referidos correspondem, no Tractatus, ao algarismo ponderado como valor de verdade.
É na proposição que Wittgenstein desenvolve seu tema relacionado com o signo. Isso ocorre a partir do número ponderado. “Na proposição, o pensamento se exprime sensível e perceptivelmente”. Para Wittgenstein, a situação possível nada mais é que o signo sensível e perceptível.
SIGNOS SIMPLES empregam-se nas proposições, e são chamados nomes. A função de cada nome é denotar um objeto. Por isso, na proposição, o nome substitui o objeto.
NOME é um signo primitivo, e, portanto, não tem denotação. Só em conexão com a proposição o nome (ou signo primitivo) tem denotação. O nome denota um objeto, apenas porque o substitui.
SENTIDO PROPOSICIONAL constitui o enunciado mais significativo desse universo conceitual. Wittgenstein denomina assim, o signo pelo qual se expressa o pensamento. “O signo proposicional consiste em que seus elementos, as palavras, estão relacionados uns aos outros de maneira determinada.” E conclui: “O signo proposicional é um fato”.
VERDADE é uma possibilidade que resulta da relação de dois conceitos: V (para verdadeiro) e F (para falso). As possibilidades da verdade, em suma, resultam das relações entre esses conceitos. assim, tomadas as proposições p, q e r, as hipóteses de relação aduzidas por Wittgenstein são as seguintes:
p q R p q r
V V V V V V .1
F V V F V F .2
V F V V F .3
V V F F F .4
.5
F F V .6
F V F .7
V F F .8
F F F .9
Para Wittgenstein (como para os pragmáticos) todo signo é arbitrário, o que deflagra a subseqüência dos elementos arbitrários que dele derivam. Daí, duas asserções importantes:
“Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo”. De que decorre: “Para uma resposta inexprimível é inexprimível a pergunta”.
“O que não se pode falar, deve-se calar”.
(*) é professor universitário,jornalista e escritor
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PEIRCE, Charles Sanders. Estudos Coligidos. Col. Os pensadores, trad. bras., São
Paulo: abril, 1980 (ant.).
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. 2ª ed., trad. bras., São Paulo:
Cultrix / EDUSP, 1975 (ant.).
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. trad. bras., São Paulo: C.E.N.,
1968 (1921).
SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Cultrix, 1988.
VALENTE,Nelson.BROSSO,Rubens.Elementos de Semiótica – Comunicação verbal e
alfabeto visual. Coleção Universidades.São Paulo: Editora Panorama.1999.Sobre o Autor Professor Universitário, Jornalista e Escritor. Presidente da Academia de Letras Blumenauense/ALB.
Mestre e Doutor em Comunicação. Sólidos conhecimentos na área de Legislação Educacional: Regimento,PDI,PPP, Projetos Políticos Pedagógicos de Cursos. Com 60 livros publicados e reconhecidos internacionalmente ( Itália,Estados Unidos,Argentina...). Os últimos lançamentos: Mito, Sonho e Loucura; Teoria Lógica dos Signos; Não adapte.Adote. O livro do Professor ! e Jânio da Silva Quadros: crônica de uma renúncia anunciada ( Intermedial Editora). No prelo: História da Educação Universal e Brasileira ( Intermedial Editora).
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Comentários (1)
Avaliado porAnselmo Medeiros, fevereiro 9, 2008
Nelson Valente é autor do livro: Elementos de Semiótica - comunicação verbal e alfabeto visual, referência nas melhores Universidades do país. Valente trouxe para a FURB - Universidade Regional de Blumenau nos anos 2001/2002 a Semiótica para os cursos de Propaganda e Marketing.Em Teoria Lógica dos Signos é uma resenha de seu livro sobre Semiótica. Excelente.
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