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Arquivo: Eu, Estamira.doc Acessos: 447 Publicado em: 2008-02-23
"EU, ESTAMIRA, SOU A VISÃO DE CADA UM."
Esta é a definição que Estamira, uma mulher de 63 anos, se dá. Marcos Prado revelou ao mundo, através de um documentário, a senhora que, há 20 anos, divide espaço com o lixo despejado no Aterro Metropolitano de Gramacho, no Rio de Janeiro. Lúcida e ao mesmo tempo louca, diz que sua função é “revelar a verdade, somente a verdade”. Estamira é mãe de três filhos e habita, sozinha, um barraco de chão batido, do qual se orgulha, pois fruto de seu trabalho garimpando o lixo.
Lixo. Não é assim que gosta de se referir ao aterro, um lugar insólito e insalubre, onde crianças e adultos disputam restos de comida com urubus, cavalos e cachorros. “É um depósito dos restos; às vezes é só resto e às vezes vem também o descuido. Resto e descuido (...) quem economiza tem (...) ficar sem é muito ruim.”
Sua história de depressão e indignidade é capaz de incomodar. Aos 12 anos, foi estuprada por seu avô materno que a deixou em um prostíbulo onde conheceu um homem que a levou para casa. “Ele era mulherengo.” Casada pela segunda vez, com um italiano, protagonizou uma história de agressões e humilhação. “Esse também era mulherengo.” Uma briga travada por troca de ameaças pôs fim a mais um casamento. Chegou a morar na rua. Sua filha menor, adotada por outra família, a ajudava a esmolar. “É triste, muito triste.”
A lembrança do sofrimento que sua mãe carregara, é ferida na alma de Estamira. Carrega na memória, talvez a fase mais lúcida de sua vida: o clamor de sua mãe quando internada no Hospital Psiquiátrico Pedro II, em Engenho de Dentro – “Estanira (era assim que se referia à sua filha Estamira), me tira daqui, Estanira!”
“Eu posso revelar quem é Deus.”
Em sua vontade de ser vista e ouvida, Estamira repete que veio ao mundo para “revelar a verdade”. Em seu discurso, através de metáforas, evidencia sua revolta e sua descrença em Deus. Ela o define de “poderoso ao contrário” e se julga mais sábia que Ele. “Que Deus é esse? Que Deus é esse que só fala de guerra e não sei o quê? Não é Ele que o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem andou com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que Ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!”
O que é Deus na visão de Estamira? É aquele que, na existência, permite toda espécie de “trocadilhos”: o mal parecer bom, o feio parecer belo, o homem explorar o próprio homem, e assim por diante (não existe “homem inocente”, mas “esperto ao contrário”). “Sou ruim, mas não sou perversa.” Em várias passagens, Estamira se mostra revoltada com Deus e chega a dizer que seu ouvido não é privada diante da leitura que seu filho faz do Novo Testamento.
À morte ela dá sua própria definição: o “além dos além”, onde nenhum “sangüíneo pode ir lá”. “Sangüíneo”, para ela, é o homem em carne e osso, em formato, formato “homem par” e “homem ímpar”. Perturbada, diz que se comunica com “astros negativos”, espíritos “ruins” que tentam atordoá-la.
“O homem é o único condicional.”
O que se entende com a frase pronunciada inúmeras vezes por Estamira – “o homem é o único condicional” – é que o homem é o único responsável por tudo aquilo que lhe acontece. Não existe predestinação. Não existe Deus. Deus não acolhe o homem, não o ouve. “Piolho de terra suja que renegou os homens como o único condicional, mais revoltada eu fico.” A expressão “piolho de terra suja” significaria devoto?
“Sacrifício é uma coisa, agora, trabalhar é outra.”
Estamira demonstra fugir da realidade. Considera-se lúcida e vive em um mundo onde cria seus próprios conceitos, demonstrando certa sabedoria ao mesclá-los. Segundo ela, não vive para “fazer dinheiro”, não vive por isso. Porém, sem ter a clara noção de que muitas das vezes entra em contradição, diz não concordar com a vida.
Há 20 anos, Estamira sobrevive do que cata no aterro. Este é seu trabalho. Com chuva ou com sol, lá está ela a buscar sua subsistência, seu sustento para o corpo e para a alma. Tem sua atividade voltada para isso e não visa acumulação.
“Isso aqui é um disfarce de escravo. Escravo disfarçado de liberto, de libertado. Olha, a Izabel, ela soltou eles, né? E não deu emprego pros escravos; passam fome, comem qualquer coisa, igual aos animais e não têm educação.”
“Eu nunca tive aquilo que eu sou: sorte boa.”
A história de Estamira foi documentada pelo fotógrafo, e então diretor e produtor, Marcos Prado. Não se trata de um caso isolado. Estamira protagonizou no cinema uma história vivida por mais de centenas de brasileiros: o descaso. E aqui, não se refere apenas a quem viva no lixão, afinal, os direitos sociais elencados na Carta Magna são privilégios para poucos.
REFERÊNCIAS
PRADO, Marcos. Documentário Estamira. Ano: 2004.
Site oficial do documentário. www.estamira.com.br.Sobre o Autor Graduada em Fisioterapia pela Universidade de Franca - UNIFRAN - e acadêmica de Direito pela Universidade de Uberaba - UNIUBE.
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Comentários (2)
Avaliado poramado, fevereiro 24, 2008
As, Estamiras, estam se multiplicando, é dever nosso temos um pouco mais de conhecimento e conforto, auxiliar.
Avaliado porSILAS, abril 17, 2008
"ALEM DOS ALEM" O FILME CONTA UMA VERDADE QUE NOS NÃO CONHECEMOS, ESTAMIRA É UMA MULHER FORTE E DESTEMIDA. O FILME É OTIMO VALE APENA ASSISTIR!
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