O Maior Chinês de Todos os Tempos

*Artigo escrito e publicado em 2017

Quando falamos a respeito da Antiguidade, as imagens que nos vêm à mente são as da Antiguidade Ocidental, com protagonistas da Grécia, do Egito, da Macedônia e da Roma antigas, sendo-nos familiares tais figuras. Mas, e quanto à Antiguidade Oriental? Teve também muitos mestres e senhores, de modo que, fora do campo religioso e ao meu ver, o mais importante de todos foi o filósofo chinês Confúcio (孔夫子).

Nascido em 551 a.C. no Estado chinês de Lu, Confúcio perdeu o pai muito jovem, o que fez com que ele e a mãe vivessem em estado de pobreza por muito tempo. Ainda novo entrou para o serviço público num cargo subalterno - mas que exigia conhecimento, caso contrário ele não estaria lá – e do qual se desligou pouco depois para, durante os dezesseis anos seguintes, começar a doutrinar os jovens em sua inovadora teoria a respeito das relações, principalmente, entre governantes e governados.

Suas idéias consistiam basicamente no fato de que os governantes devem se tecer pelo exemplo moral dado aos governados, e não pelo uso da força bruta. Se fizerem isso, o povo os seguirá e prestará-lhes obediência sem que, no meu dizer, haja a necessidade de um grande “monopólio do uso legítimo da força em um determinado território” (como, milênios mais tarde, viria a afirmar Max Weber, filósofo alemão fundador da sociologia moderna). E como fariam os governantes para tornar tal utopia realidade, de acordo com a ideologia de Confúcio?

Haveria de ter uma separação lógica entre ética e política. A ética seria o campo individual de atuação, em que o indivíduo exerceria, na sua vida pessoal, o Li, que representava polidez, educação, etiqueta, respeito, honra e moral inabaláveis. A política seria o terreno do Direito Público, exercido por estadistas que, utilizando o Li em suas vidas individuais, transfeririam, desta forma, sua a atuação para o campo dos interesses coletivos, por meio do Jen, que significa “amor”, ou, mais amplamente, “cuidado benevolente por seu semelhante, eis que o Estado existe para servir à população, e não o contrário. Assim, teríamos o Homem Ju (“superior”) no comando do Estado, mantendo a obediência dos governados sem que haja a necessidade de tirania, condenada por Confúcio.

Na filosofia de Confúcio, não só os governados, nas circunstâncias acima descritas, deviam obediência aos governantes (que podemos considerar como uma das primeiras formas de positivismo): todos tinham de honrar seus antepassados, as esposas deviam obediências aos seus maridos e o respeito à vida do outro teria de ser quase que absoluto, numa observância da Regra de Ouro por ele proposta: “Não faça aos outros o que não quer que te façam” – essa norma, se aplicada individualmente pelos governantes seria automaticamente a filosofia do Estado - resultando nas consequências acima mencionadas.

Não obstante tais características, típicas do que, após a Revolução Francesa de 1789, viria a ser chamado de “Estado laico”, muitos autores ainda afirmam ser o Confucionismo uma religião. Nada mais incorreto, já que Confúcio não falava sobre vida após a morte, não estabeleceu rituais de ligação com o sobrenatural, não mencionava deuses – embora não saibamos se ele acreditava ou não numa deidade ou grupo de deidades – e não discutia metafísica. Para ele, o que importava era a realidade terrestre, tanto que conclamou seus compatriotas, por meio de seus ideais – transmitidos de forma simples e objetiva, tendo em vista a personalidade prática do povo chinês (sendo essa uma das razões, senão a principal, pelas quais obteve tanto sucesso) - a seguirem seus ensinamentos no sentido de retorno a uma remota “Idade do Ouro” que teria existido na China muito antes de seu surgimento, considerando-se, portanto, um conservador radical.

A revolução que obteve com sua ideologia foi tão grande que, aos cerca de cinquenta anos de idade – mesmo sendo considerado idoso para os padrões medicinais da época - foi-lhe oferecido um alto posto burocrático do governo do Estado de Lu, que foi aceito por ele. Ocorre que nem todos estavam felizes com a ascenção de Confúcio. Havia inimigos que tramaram sua queda, que acabaria ocorrendo cerca de quatro anos após, exilando-o de Lu. Então, desgostoso, Confúcio repetiu o que havia feito na juventude e saiu a doutrinar, nos treze anos seguintes e China afora, homens ricos e pobres, jovens e idosos, letrados e lavradores, sempre objetivando o bem comum. Morreria em 479 a.C. já de volta à sua terra natal.

Confúcio viveu durante a Dinastia Chou, encorajadora de grande efervescência intelectual em toda a China, incluindo sua doutrina, que, porém, não foi posta em prática pelos governantes da época. Mas, depois de sua morte, o Confucionismo teve rápida expansão pela China, alcançando, também, a Coréia e o Japão. Entretanto, com o advento de Dinastia Ch’in e seu primeiro imperador, Shih Huang Ti, em 221 a.C., o Confucionismo sofreu forte perseguição e muitos dos exemplares das obras de Confúcio – a exemplo da principal delas, “Os Analectos” – foram banidas e queimadas.

Mas nem Huang Ti conseguiu erradicar o Confucionismo com sua pesada repressão, pois, após a queda da Dinastia Ch’in, entraram em cena os dinastas Han (206 a.C -220 d.C.), que adotaram os ideais de Confúcio como a filosofia oficial do Estado chinês. Como, durante suas pregações e em sua obra, Confúcio também afirmava que o Estado deveria ser dirigido pelos mais capazes – e não apenas pelos dotados de mais nobre caráter - os Han instalaram exames de seleção para todos aqueles interessados em ingressar no serviço público, que oferecia retorno financeiro e status aos aprovados. A qualidade dos serviços, assim, aumentou exponencialmente.

Enfim, o Confucionismo, como filosofia oficial do Estado chinês, fez que que aquele país viesse a ser um dos mais bem governados do mundo, com longos períodos de paz e prosperidade internas durante mais de 2 mil anos.

Um gênio, possuidor de uma inteligência extraordinária. Caridoso, bondoso e de espírito coletivo. Assim era Confúcio, aquele que foi, definitivamente, o maior chinês de todos os tempos. 

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