Os Samurais

Ao longo da História, sempre houve fascinantes personagens que viriam a inspirar a imaginação das mais remotas, presentes e futuras gerações, e que viveram nos mais diferentes contextos. No entendimento geral, alguns dos maiores protagonistas de tanta admiração e grandiosidade eram, justamente, os samurais.

Guerreiros que, inicialmente entre o século VIII e o ano 930, surgiram como meros cobradores de tributos e serviçais do Império Japonês, os samurais se tornaram uma rígida e disciplinada soldadesca. E, ao entrar em cena o Shogunato Kamakura (governo militar que se estabeleceu no poder de fato em 1185 – ou, se preferirem, em 1192, quando foi oficialmente instalado - fazendo com que o imperador viesse a se tornar mera figura decorativa no sistema político nipônico), foram lentamente ganhando atribuições muito acima dos rudes papéis que até então lhes eram destinados, tornando-se a classe dominante naquele distante e exótico Japão feudal. Dentre essas novas funções a mais importante era a militar – o que fazia com que, consequentemente, devessem proteção, lealdade e se responsabilizassem pela defesa e sustentação política do shogun (generalíssimo chefe do shogunato), dos imperadores (já que, não obstante estarem destituídos de tomar decisões, eram eles considerados fatores de eventual e futura unificação da nação japonesa) e de seus próprios e respectivos senhores feudais.

Naquela época, quaisquer cidadãos do império podiam se tornar samurais, devendo, para tanto, serem alfabetizados, fortes e preparados o suficiente para suportar um combate e estarem adestrados no kobudo (arte marcial samurai), de modo a facilitar sua cooptação por um senhor feudal. Também tinham que carregar consigo duas espadas: a katana (espada maior) e a tanto (espada menor), com a qual viriam a cometer suicídio através de um profundo corte no próprio ventre se seu nome e/ou de sua família caísse em desonra, especialmente se não conseguia cumprir com os deveres de proteção e lealdade descritos no segundo parágrafo. Deste modo, o suicídio limparia a sua honra e/ou da respectiva família.

E qual era a doutrina por eles seguida a fim de incorporar essa proteção e lealdade, de modo a não falhar, e, deste modo, evitar o suicídio? Primeiramente, se instruíam nos valores de três grandes filosofias do Extremo Oriente, que eram o Budismo (cuja meditação lhes dava força interior a fim de não temerem a morte, no caso de combate ou fora dele), o Confucionismo (determinador de uma antiga forma de positivismo, que impõe o seguimento às regras sociais e legais vigentes) e o Xintoísmo (principal religião do Japão à época – como o é até hoje – e que tem como base o culto aos antepassados e a reverência à honra da própria família). Mas não é só isso: o mais famoso ferreiro de espadas samurais durante o Shogunato Kamakura, Masamune Okazaki – sendo consenso entre os historiadores que fabricou a maior parte de suas espadas entre 1288 e 1328 - as forjava também tendo por base essas filosofias. Assim, suas criações não visavam a guerra, mas a paz, valor supremo do bushido (Código de Honra samurai, que, numa síntese de tudo o foi até aqui falado, abrangia:

Se rigidamente seguido, o Código de Honra fazia com que o samurai vivesse e morresse dignamente. Em caso de falha que fizesse com que seu nome e/ou de sua família viesse a ser manchado, o suicídio seria o caminho escolhido, como já dito, por meio da tanto ou de uma lâmina menor.

Por volta de 1333, o Shogunato Kamakura não conseguia conter o descontentamento pela falta de recompensas àqueles que lutaram e sobreviveram às invasões mongóis do Japão ordenadas por Kublai Khan (neto do famoso Gênghis Khan). Assim, foi ordenado ao clã Ashikaga que esmagasse os revoltosos, mas, em uma reviravolta inesperada, em 1336 tomaram o poder e fundaram o Shogunato Ashikaga, com capital em Kioto e mantendo o imperador como figura que – volto a dizer – era apenas decorativa, mas também um fator de suposta unificação. Em toda essa transição os samurais permaneceram incólumes, conservando seu status quo até a ascenção do Shogunato Tokugawa (também chamado de “Período Edo” por sua capital estar situada na cidade de mesmo nome [antiga denominação de Tóquio]), em 1603. Nesse reinado, além de o Japão ter se unificado politicamente e do papel militar que habitualmente lhes era endereçado, os honrados guerreiros passaram a exercer, também, funções administrativas, além de terem se tornado uma casta, ganhando, desta maneira, o direito de passar o título de “samurai” aos seus descendentes imediatos. No mais, suas espadas adquiriram funções cerimoniais.

Com a queda dos Tokugawa, em 1867, e o fim definitivo dos shogunatos, teve lugar a Restauração Meiji, que foi a volta do poder de fato de imperador, cuja permanência na direção do país se consolidou em 1868. O monarca, naquela ocasião, iniciou a organização do Exército imperial ao estilo ocidental, simultaneamente a uma política de extinção dos samurais, que existiram até 1877, quando foram definitivamente eliminados por meio da Batalha de Satsuma.

INFLUÊNCIAS POSTERIORES NA SOCIEDADE JAPONESA

Os samurais não apenas cativam nossa imaginação: eles sempre mantiveram uma profunda influência na sociedade japonesa Pós-Restauração Meiji.

Como exemplo, podemos citar a Segunda Guerra Mundial, na qual muitos soldados japoneses, além de utilizarem baionetas (cuja origem é provavelmente francesa, uma vez que na década de 1660 o Exército gaulês já as usava), também carregavam consigo katanas para mutilar os inimigos. No mais, os kamikazes – pilotos de aviões suicidas que se lançavam sobre os navios inimigos durante as batalhas no Pacífico – também davam mais valor à honra de servir ao imperador que às próprias vidas.

Nos dias atuais, quando políticos ou mesmo cidadãos comuns japoneses são flagrados cometendo atos ilícitos, alguns não suportam tanta vergonha – e a consequente desonra própria e da família – e se matam, livrando os parentes do constrangimento que lhes fora imposto pelo suicida.

CONCLUSÃO

Hoje, no Ocidente, temos a possibilidade de até mesmo negar os valores samurais e a forma radical de resolução dos conflitos em sua época de auge e de glória. Mas, justamente por terem seguido rigidamente os padrões morais de seu tempo e sociedade, merecem o nosso mais profundo respeito e admiração. Assim, temos a obrigação de, a qualquer custo, destinar-lhes alguns dos lugares mais altos no panteões da História.

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