Sobre o Reino Unido e Muçulmanos

Há alguns meses escrevi um artigo intitulado “Sobre a França e Muçulmanos”, em que mostro como os serviços de inteligência de um país podem se voltar contra a sua própria população a fim de garantir os escusos interesses dos respectivos governos. Tendo em vista o recente atentado ocorrido em uma mesquita no Reino Unido, volto a discutir tal tema.

É fato que os britânicos formaram o maior império colonial da História, que abrangia parcelas de todos os continentes habitados. Daí a célebre frase de que “o Sol nunca se põe no Império Britânico” (pois, de tão extenso e abranger todos os continentes habitados, sempre havia algum de seus domínios iluminado pela luz do dia), no qual estavam incluídos, dentre outras terras, a Índia, segundo território mais populoso do mundo e cuja maior religião, depois do Hinduísmo, é o Islã e onde o Reino Unido implantou um dos mais terríveis regimes de todo o seu império, bem como o muçulmano Afeganistão, que tentou conquistar – mas que nunca foi entregue de mão beijada por seu povo.

E também é notório que, especialmente durante o século XX e até depois da Segunda Guerra Mundial, os súditos de rainha ainda detinham muitas colônias – grande parte na África - além de um mandato de governança da Palestina, concedido pela fracassada Liga das Nações, com data de validade até 1948. Por isso, logo antes, em 1947, com o consentimento dos próprios britânicos e das demais potências vencedoras da Segunda Guerra, a Assembléia-Geral da então recém-criada ONU havia aprovado o Tratado de Partilha da Palestina, culminando com a criação do Estado de Israel em 1948 e cujo estabelecimento sempre foi visto por sacerdotes muçulmanos como um ataque da Organização Sionista Mundial ao Islã, como menciono em outro artigo, de título “O Conflito Árabe-Israelense: Medidas Essenciais” (lá, digo que “um fator inicialmente político (o Tratado de Partilha) passou a ser difundido por religiosos muçulmanos radicais como uma ofensa ao Islã, especialmente após a tomada de Jerusalém Oriental. Isso porque a maior parte da população palestina (bem como da árabe em geral) é muçulmana e esta era a única forma de se recrutar voluntários suicidas para um eterno conflito que sempre seria perdido nos campos de batalha, mas que, na concepção daqueles sacerdotes, pode ser vencido em um infindável estado de beligerância não formal por meio da constante realização de atentados por quem não teme, mas deseja a morte, não podendo, portanto, ser detido”).

A partir daí, a política externa do Reino Unido para o Oriente Médio foi ainda mais recheada de parcialidade e beligerância que outrora, principalmente nos conflitos travados entre Israel e os países árabes, desde a Guerra de Independência até a Intifada Palestina dos anos 2000, fazendo com que os muçulmanos vissem os britânicos como um grupo nacional imperialista, autocrático (embora os sistemas políticos islâmicos também o sejam) e gendarme dos EUA (que, realmente e não custa lembrar, foram o primeiro país condenado por terrorismo pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, em virtude de sua política genocida para a América Central na década de 1980), o que, aliado ao passado colonial do Reino Unido nos rincões asiáticos mencionados no segundo parágrafo, somente reforça a visão da minoria de fanáticos religiosos.

Por falar nos EUA, o Reino Unido sempre fez e faz parte de suas coalizões que objetivam bombardear algum país muçulmano, como bem provam a Guerra do Golfo (1991) e a Guerra do Iraque (2003), esta última sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, o que aumentou a sensação de sua ilegalidade e ilegitimidade. Além disso, há os constantes ataques ao Iêmen e, novamente, a ocupação do Afeganistão, tal como ocorrera durante o período do império colonial.

Com um histórico como esse, é óbvio que o ódio a uma das principais potências ocidentais viria, um dia, a aflorar com atentados terroristas em território britânico se multiplicando cada vez mais, como ocorreu em Londres em julho de 2005, e, agora, em 2017 na capital britânica e em Manchester. Como é impossível mudar o passado, e é difícil se desvencilhar de uma aliança militar tão profunda como a que os britânicos mantêm com os EUA, o MI-5 (serviço de inteligência britânico para a repressão a atos de terrorismo dentro do Reino Unido) entrou em ação com métodos tão crus e desumanos quanto os praticados pela inteligência exterior (o MI-6) e os serviços secretos franceses, citados no outro artigo. Dentre esses métodos estão a omissão dolosa em relação a qualquer ato terrorista de que a inteligência tenha prévio conhecimento, como foi o atentado à mesquita em Londres. Assim, tratando dito ataque, praticado por um britânico, como terrorista, o governo da primeira-ministra Theresa May entra numa posição defensiva dos muçulmanos, angariando a simpatia de convertidos de dentro e fora de seu território nacional, podendo, desta maneira, prolongar a sobrevida das atuais ofensivas e ocupações militares britânicas ao afirmar que são por razões políticas, e não religiosas.

De Gaulle já dizia que “Estados não têm amigos, apenas interesses”. Isso vale tanto para democracias ocidentais quanto para qualquer outro Estado. Por isso, não esperem diferença de comportamento nos bastidores de qualquer governo enquanto a raça humana continuar a se digladiar. Nem nesta ou em outras encarnações.

P.S. Como qualquer outra religião, o Islã deve ser respeitado. O fanatismo, como sempre, é praticado por uma minoria dos que se dizem fiéis.

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