O Fracasso de Trump

Há alguns anos escrevi dois artigos intitulados “O Barril de Pólvora da Ásia Central” e “Ucrânia: O Novo Alvo de Putin”. Naqueles textos afirmo, respectivamente, que “os EUA têm a capacidade de mobilizar seus efetivos militares em qualquer lugar do planeta em apenas três dias e de massacrar qualquer um que ouse obstar seu caminho” e que “a ninguém interessa, de fato, entrar em guerra contra a Rússia, umas das maiores potências militares”. Tendo em vista os recentes acontecimentos  registrados no Oriente Médio, passo a comentar essas duas citações.

Há um mês foi ordenado pelo ditador da Síria um ataque com armas químicas contra civis daquele país. Como esse tipo de armamento é proibido por tratados e convenções internacionais, o presidente dos EUA, Donald Trump, retaliou por meio do bombardeio a uma base militar síria. Só que, por sua intempestividade, o mandatário americano não levou em conta que a Rússia é aliada do governo de Damasco, e, portanto, pode ter participado da agressão inicial com armamento químico.

Se ficar provado que a Rússia tomou parte no mencionado ataque, os EUA, para transmitirem um mínimo de coerência em sua política externa, deveriam também bombardear a base militar que os russos mantêm na costa da Síria desde a década de 1970. Afinal, se assim agiram com os sírios em seu território, por que não com a Rússia, que lá possui tal instalação há tanto tempo? Porque, além de Trump ter sido ajudado por hackers russos a vencer a eleição presidencial, “a ninguém interessa, de fato, entrar em guerra contra a Rússia, umas das maiores potências militares”. Nem mesmo aos EUA, que com certeza venceriam tal embate convencional, mas não sem antes sofrerem dezenas de milhares de baixas, numa quantidade superior à registrada no Vietnã (cuja guerra, muito mais pelo número de mortes de americanos – cerca de 58 mil - que pela sua duração, tornou-se altamente impopular entre os ianques). Então, o que faz o governo dos EUA, em relação a este caso, para esconder tantas contradições em suas relações exteriores?

Primeiro, tenta impedir uma investigação mais aprofundada sobre o assunto, tudo para creditar a culpa do crime de guerra tão somente ao ditador Bashar al-Assad, seu mortal inimigo, já que a revelação de eventual participação russa no massacre evidenciaria o fracasso de Trump ao usar, para dois países, dois pesos e duas medidas, e, mesmo assim, não alcançar a paz na região, o que comprometeria a reeleição da atual administração.

Segundo, para desviar a atenção, começa a peitar a Coréia do Norte, para lá enviando navios de guerra, em nítida provocação ao ditador Kim Jong-un. Não que, em resposta, Jong-un venha a usar armas nucleares – nunca fará isso, pois os EUA reagiriam da mesma forma e de modo muito mais forte, destruindo a dinastia Kim – mas o Exército norte-coreano é fortíssimo, com mais de 1 milhão de soldados, e, assim como os russos, perderia uma futura guerra convencional, mas sempre infligindo enormes danos à estrutura militar dos EUA, cuja liderança sairia enfraquecida e desmoralizada, não se reelegendo.

Com pouco mais de 100 dias de governo, Trump já se mostra totalmente fracassado em sua política externa, matando e ameaçando sem conseguir atingir quaisquer pretensos objetivos de paz, seja onde for. Resta saber se será assim pelos próximos 04 ou 08 anos, ou se, um dia, ele terá um mínimo de lucidez, própria dos sábios (algo que ele, definitivamente, não é).

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