Moscas e Abelhas...

Por Acedriana Vicente Sandi, diretora pedagógica da Editora Positivo

Aprendemos muito com os nossos professores. Para além dos conteúdos conceituais, tive oportunidade de aprender com o Prof. Fialho, um grande mestre da Universidade Federal de Santa Catarina, que algumas pessoas parecem ser “abelhas”, pois qualquer que seja a situação enxergam o “néctar”. Outros, dizia meu professor, ao contrário, optam por ser “moscas”: em tudo, vêem excremento.  Essa idéia me ajuda, diariamente, na empreitada que travo comigo mesma, de aperfeiçoamento da qualidade de ser pessoa. Não são poucos os momentos em que questiono se minha postura é de “mosca” ou de “abelha” diante desta ou daquela situação.

Mas, em que a analogia do “jeito mosca ou abelha de ser” pode nos ajudar a entender melhor uns aos outros?

Dificilmente uma situação é totalmente ruim ou totalmente boa. Para ilustrar essa afirmativa, pensemos em um lindo jardim. Todos os movimentos de uma mosca nesse jardim são para encontrar os dejetos ali presentes, enquanto que os da abelha são para buscar néctares. Nossos movimentos de busca, muitas vezes, definem aquilo que vamos encontrar… Se estivermos imbuídos da ‘postura abelha’, teremos inúmeras possibilidades de produzir o “deleite” e com ele construir coisas boas. Mas, se optarmos por uma ‘postura mosca’ – além do potencial veiculador de mais de uma centena de organismos patogênicos como vírus, bactérias, protozoários – encontraremos, sem dúvida, as mazelas existentes em todas as escolhas que fazemos, em todas as produções que concebemos, em todas as relações humanas de que participamos. Sempre haverá possibilidade de encontrarmos os dois elementos!

Ampliando ainda mais esta reflexão, sabemos que as abelhas produzem o mel que serve de alimento durante o período do inverno; no entanto, ao produzirem o seu próprio alimento elas geram vida em abundância, pois da polinização depende a perpetuação de muitas espécies de plantas e de outras formas de vida. Percebe-se, então, que não é um fazer que se limita à extensão, mas também a intensidade do acontecimento.

As “moscas” também geram vida, mas o fazem depositando bactérias em comidas ou suas larvas em frutos que em seguida apodrecem. O curioso é que esses dois insetos habitam no mesmo espaço e, no entanto, olham para as possibilidades de formas muito diferentes.

Estendendo a analogia à docência, podemos nos perguntar se somos mais “abelhas” ou mais “moscas”. É evidente que ao fazer analogia com animais deva-se ponderar o fato de que os mesmos são programados geneticamente e, nós humanos, somos dependentes da aprendizagem. Os animais já nascem preparados, como se a obra já viesse pronta. Eles são o que são ao nascer. O ser humano, ao contrário, além da carga genética é dependente da mediação, pois ao nascer já encontra um mundo pré-existente, o que acaba por ser uma vantagem, uma vez que pode usar esses conhecimentos construídos por gerações, para evoluir como espécie, sem que tenha que começar do nada.

Mesmo tendo consciência dessas diferenças, vale a pena investir um pouco mais na metáfora da vida de inseto. Ela pode nos ajudar a problematizar uma perspectiva de aprendizagem mais condizente com esse tempo que vivemos e outro que há de vir, onde as nossas crianças serão desfiadas a interagir em ambientes complexos, marcados pela diversidade e em constante mudança. Sendo assim, possivelmente tenha mais chance de favorecer uma verdadeira aprendizagem o educador que fecunda do que aquele que deposita. As abelhas e as moscas não têm opção…  Mas nós a temos!

As nossas escolhas geram possibilidades de vida por meio dos nossos olhares, dos nossos gestos, das nossas palavras, dos nossos saberes… Vida que cria, vida que inventa, vida que duvida, vida que pergunta… A nossa inteligência não deve nos deixar escolher o outro tipo de vida: a copiada, a treinada, a reproduzida. Simplesmente uma vida que já nasce morta ou talvez, mais triste do que isso, uma vida que nunca conhecerá suas potencialidades de criar o novo, de olhar para velhos problemas e ver neles novas soluções. A ‘postura abelha’ traz consigo, portanto, a possibilidade intrínseca da docência que é a de fecundar as pessoas para que as mesmas possam, por meio de uma gestação única e intransferível, deixar nascer todo o seu potencial.

Sob essa ótica é que fundamos o papel da expectativa do professor em relação ao desenvolvimento das potencialidades dos seus alunos. Ouso dizer que existe uma relação direta entre a expectativa do professor e o desempenho do aluno. Quando encontramos um professor que acredita que somos capazes e com ele temos um vínculo positivo, botamo-nos em movimento para não decepcioná-lo. O que é capaz de aquecer os nossos corações é capaz de nos mobilizar, rumo à superação das nossas dificuldades, com vistas a ampliar nossos saberes. São os professores com ‘postura abelha’ que fazem a diferença, pois ajudam a encontrar o melhor de nós e acreditam, piamente, que podemos nos superar a cada dia.

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