Bandeirantes, jesuítas e imigrantes: a história de São Paulo através de suas rodovias

As estradas estão no âmago da história da cidade de São Paulo, a começar pela sua própria localização. O que eram tão somente os chamados de Campos de Piratininga acabou tendo início um povoado, que se iniciou com um colégio de jesuítas, fundado em 25 de janeiro de 1554 (e, por isso mesmo, consagrado a São Paulo, já que 25 de janeiro é o dia da conversão do santo), e colocado acima de um platô triangular - o depois conhecido "Triângulo Histórico". Logo a localidade se integrou ao chamado "Caminho do Peabiru", uma extensa estrada de índios da região, cujo o tráfego ficava dentro do litoral sul do Brasil, e tinha uma de suas saídas em São Vicente, no litoral de São Paulo (passando pela vila homônima, acima da Serra do Mar), e a outra do litoral do Paraná, seguindo , depois sertão adentro, indo até as cercanias da atual cidade de Assunção, no Paraguai.  Se sua história inicial já era assim, durante o passar dos séculos as estradas continuaram a ter uma importância cabal pros paulistas. Tanto é assim que, devido à elas - ou melhor, à criação delas (para servir às suas buscas por riquezas e ao chamado apresamento indígena) - aparecem os primeiros caminhos de bandeirantes, nos séculos XVII e XVIII. E é por eles que começaremos nossa viagem pelas estradas de São Paulo...1) Antonio Raposo TavaresFoi um português que veio para a colônia e que se radicou em São Paulo. Como tinha vindo se aventurar, atrás da fortuna, foi fazer o que mais poderia render aos paulistanos de então: seguir para o sertão em busca de riquezas (e apresando índios pelo caminho). Ele e sua bandeira foram o terror de índios do Guaíra (o atual Paraná), das regiões de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul, bem como do Tapes (o atual Rio Grande do Sul). Em sua última bandeira, diz-se que ele chegou nas cercanias do atual Peru, próximo a Cordilheira dos Andes, tendo seguido, daí, para a região norte do Brasil.Devido à direção de uma de suas primeiras bandeiras, a própria Rodovia Raposo Tavares perfaz, em nossos dias, o próprio caminho seguido por homenageado e seu grupo de bandeirantes.2) Fernão Dias Paes Leme Foi um paulista que quis fazer fortuna achando ouro e pedras preciosas, resolvendo se aventurar com sua bandeira - um verdadeiro "potentado em arcos", forma mais branda de mensurar a quantidade enorme de índios que ele tinha em sua fazenda. Seguiu para o norte e, curiosamente, podemos dizer que o conhecido "Caçador de Esmeraldas", mesmo não tendo achado seus veios maravilhosos, estava certo em suas suposições, uma vez que a região que explorou - a das futuras Minas Gerais - tinha mesmo muito ouro e pedras preciosas, coisa que foi comprovada em fins do século XVIII.Não é à toa, portanto, que a estrada que sai de São Paulo em direção ao norte e à Minas Gerais, tenha sido nomeada, em sua homenagem, como Rodovia Fernão Dias. Era uma figura tão importante da São Paulo do século XVII que, como medida disso, podemos citar que seu corpo está, até hoje, sepultado na cripta do Mosteiro de São Bento, num jazigo perpétuo, devido aos serviços prestados à cidade e na construção do próprio mosteiro.3) Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera Nascido em Santana de Parnaíba, no século XVII, o paulista Bartolomeu Bueno da Silva, era um sertanista que ficou sabendo de muito ouro sob o poder de índios do sertão. Através dos rios, em especial do Tietê (então chamado de Anhambi), seguiu na direção dessas tribos e, através de um truque muito bem bolado, conseguiu tanto saber o local de onde extraíam o ouro, quanto também acabou por escravizar os próprios índios depois. Seu truque foi pegar uma garrafa de cachaça, jogar um pouco num prato e botar fogo em frente a muitos índios boquiabertos, dizendo que sabia por fogo em água e que faria o mesmo com as águas dos rios de suas aldeias, ganhando por isso o apelido de Anhanguera ("diabo velho" em tupi).   A estrada que segue para o oeste do estado, saindo de São Paulo, segue boa parte da rota do bandeirante e sertanista e foi batizada com seu nome (ou melhor, com seu apelido), sendo a Rodovia Anhanguera.4) Os Bandeirantes Essas figuras históricas tão importantes na história da São Paulo dos século XVII e XVIII desbravaram sertões, apresaram índios e buscaram por ouro. Suas primeiras rotas seguiram na direção oeste e, pelo caminho, foram fundando cidades, tais como Santana de Parnaíba, Barueri, Carapicuíba, Itapevi, Sorocaba, Piracicaba e Itu.   Outra estrada importantíssima que, junto com a Anhanguera, segue para este mesmo oeste, foi nomeada como Rodovia dos Bandeirantes.Está no momento de apresentarmos outro tipo de personagem histórico que se liga às estradas de São Paulo. Estamos falando dos jesuítas, presentes desde os tempos da fundação, ainda no século XVI, e tão ligados, como sempre, tanto à vila do planalto, quanto aos povoamentos do litoral. Vem daí sua grande ligação com estradas do litoral paulista...5) Padre Manoel da Nóbrega Figura histórica ligada a criação da primeira missão jesuítica na América portuguesa, este padre jesuíta português foi um dos maiores responsáveis pela criação de colégios no nordeste - em Salvador - e no sudeste - em São Vicente e São Paulo - ainda no século XVI. Foi no sudeste que mais viveu e trabalhou, em especial no litoral e acima da Serra do Mar, em São Paulo, tendo morrido no Rio de Janeiro.    Devido a sua grande importância na catequização de tribos que viviam no litoral, mais ao sul, a estrada que passa por cidades como São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe - seguindo pelo litoral sul de São Paulo - só podia mesmo ser a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega.6) Padre José de Anchieta Outro jesuíta notório dos primeiros momentos da colônia, o padre jesuíta espanhol José de Anchieta trabalhou na Bahia, em São Paulo (a maior parte de sua vida no Brasil), e terminou-a na região do atual Espírito Santo. Foi quem efetivamente acabou tocando o Colégio de São Paulo, após sua fundação. Viveu entre o planalto e o litoral, catequizando em ambas as localidades.     Assim sendo, a Rodovia Anchieta é a estrada que economizou o tempo dos paulistas - e de seus automóveis - no exato trajeto que o próprio Anchieta vivia fazendo...E, já durante o século XX, aparecem outros atores de São Paulo, os imigrantes, que chegam de Santos para trabalharem em São Paulo e em seus cafezais no interior...7) Os Imigrantes Figuras históricas importantíssima no início do século XX na história de São Paulo, os imigrantes - principalmente os italianos - foram trazidos para cá para substituírem os escravos (que haviam sido libertados em fins do século XIX), sendo o seu caminho, entre Santos e São Paulo, a última etapa de sua grande viagem, se fossem ficar em São Paulo (já que os que seguiriam para as fazendas do interior ainda tinham mais um último percurso, após uma pequena estadia na Hospedaria dos Imigrantes, no Brás).   Essa viagem dos imigrantes entre Santos e São Paulo acabou batizando uma nova estrada entre o litoral e o cume da Serra do Mar, em São Paulo: a Rodovia dos Imigrantes.E, já que todas as estradas tem nomes de grandes personagens históricos, então quem é esse cara que batiza essa outra estrada importante que passa por São Paulo?8) Régis Bittencourt Ele era um bandeirante? Um jesuíta?? Um antigo prefeito, então, quem sabe??? Bom, nada disso. Em muito devido estar se vivendo durante a chamada Era Vargas - no momento da construção e inauguração da estrada - durante as décadas de 1940/1950, batizou-se a parte da grande estrada BR-116, em seu trecho que passa por São Paulo e segue para o sul do Brasil, de Rodovia Régis Bittencourt em homenagem ao grande empreiteiro e ex-presidente do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER).É, podemos dizer que os empreiteiros estão metidos em coisas "escusas", no Brasil, já há muito tempo. Mesmo que esta coisa seja, simplesmente, nomear uma estrada de São Paulo de forma tão esdrúxula e sem propósito (como a ocorrida neste caso)...

Retirado de meu blog: http://histericahistoria.blogspot.com.br 

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