Sobre a França e Muçulmanos

No início deste mês, mais precisamente em 03 de fevereiro, um homem armado com dois facões entrou no Museu do Louvre, em Paris, e feriu militares que ali se encontravam. Como resposta ao ato, um dos soldados conseguiu abatê-lo com tiros no abdômem, enviando-o em seguida a um hospital. Lá, o agressor disse ser egípcio.

Esse episódio causa bastante estranheza, eis que é o quarto em solo francês desde janeiro de 2015 (antes, houve o atentado terrorista contra o jornal satírico Charlie Hebdo e o ataque à casa noturna Bataclan, ambos em Paris, bem como o massacre com um caminhão em Nice). Como alguém consegue entrar no Louvre com dois grandes objetos de metal e não ser detectado até desferir os golpes?

Não é possível analisar o que vem acontecendo na França nos últimos dois anos sem mencionar o seu passado colonialista e os seus serviços de inteligência, que, em tese (“em tese”...), deveriam prevenir atentados, e, assim, proteger a população de ameaças internas e externas. A impressão que dá, no caso francês, é que o histórico colonial do país se combina à ineficácia de sua espionagem no combate ao terror. É puramente ineficiência ou algo mais?

Antes de responder, precisamos ter em mente que até meados do século passado a França mantinha várias colônias de exploração no continente africano, sendo a maior parte de maioria muçulmana na chamada África Ocidental Francesa. Ao norte daquela entidade havia a também islâmica colônia da Argélia, que travou dura guerra de independência contra os franceses de 1954 a 1962, quando, por fim, ocorreu sua libertação, concedida pelo presidente Charles De Gaulle.

Ocorre que, durante aquela guerra, as atitudes dos franceses não foram puramente de militares em combate, mas similares às dos nazistas, como bem assinalou o advogado e ex-militante anti-nazi Jacques Vergès ao comparar a ocupação nacional-socialista na França, durante a Segunda Guerra Mundial, à presença francesa na Argélia (também fez um paralelo entre a resistência francesa aos nazistas, da qual era parte, e a resposta argelina aos franceses).

Ora, se os franceses não foram melhores que os nazistas, massacrando legiões inteiras de muçulmanos na Argélia em uma época na qual o mundo já havia condenado o Holocausto Judeu, como conseguiram manter uma guerra nitidamente imperialista sem apoio político suficiente durante longos 08 anos? Não estariam os serviços de inteligência da França engajados no sigiloso ataque a cidadãos e interesses franceses naquela colônia, atribuindo-os aos muçulmanos, a fim de justificar o estado de beligerância, e, desta maneira, captar um  mínimo de apoio àquela louca empreitada?

É uma hipótese a se considerar. Daí pode ter surgido o original ressentimento que os muçulmanos sentem em relação à França (bem como do incondicional apoio desta a Israel no conflito árabe-judeu). E o nível de ódio de muitos muçulmanos para com os franceses só aumentou depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando a França, em obediência aos estatutos da OTAN – que determinam que o ataque contra um de seus membros é considerado uma agressão a todos os demais – se viu obrigada a ajudar na invasão do Afeganistão, em colaboração com os EUA, pelo fato de o regime Talibã proteger Osama bin Laden.

A fim de reverter tal imagem perante o mundo muçulmano, e, deste modo, “comprar segurança”, a França se recusou a participar da invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003, já que naquele caso não estava obrigada a cooperar com o ataque, pois o mesmo não foi precedido de agressão iraquiana a qualquer dos membros da OTAN. E, ainda, ameaçou vetar, no Conselho de Segurança da ONU, eventual resolução autorizando a intervenção. Com o escopo de, ainda, limpar a imagem do país, na campanha presidencial de 2012 o atual mandatário do país, François Hollande, prometeu retirar as tropas do Afeganistão até o final daquele ano, e cumpriu a promessa.

Só que os líderes ocidentais não entendem que, para os fanáticos muçulmanos – que são minoria – todas essas intervenções do Ocidente não merecem perdão. Para os mais intolerantes, é impossível o Ocidente se redimir sem ser destruído a ferro e fogo. Os serviços de inteligência da França sabem disso, e, na atualidade, provavelmente agem de modo parecido ao perpetrado na Argélia durante as décadas de 1950 e 1960: não se engajam, mas têm conhecimento de que atentados serão cometidos em território francês, dolosamente se omitindo e deixando seus cidadãos serem mortos a fim de promover e justificar o estado de emergência em que se encontra imerso o país nos últimos 16 meses, vez que desta maneira o governo adquiriu poderes plenipotenciários, podendo determinar livremente o bombardeio de posições do Exército Islâmico na Síria e no Iraque, algo que Hollande foi politicamente obrigado a fazer em razão da série de atentados sofridos.

O conflito entre o Ocidente e o Mundo Islâmico parece não ter fim. Se alguma coisa podemos aprender com esse já denominado “choque de civilizações” é que nem líderes ocidentais, nem os que dizem defender seus povos das “cruzadas” estão isentos de culpa. Ao contrário. São todos capazes de matar tão fria e assustadoramente quanto os maiores monstros do século XX.

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