Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro

Escrito em: 20/02/2017. 

Atualizado em: 02/09/2018. 

Palavras-chave: Neurociência, Religião, Cérebro, Sentimento, Memória, Neurônio, Relativismo religioso. 

Introdução:  

Na minha opinião não existe nada de sobrenatural atuando em nossas mentes a promover o aparecimento das emoções e sentimentos. Aliás a Psicologia nem seria uma ciência se deixasse permitir algo assim pois ciência é uma atividade humana na qual, a priori, não pressupõe fatores sobrenaturais influenciando fenômenos naturais, incluindo as manifestações do cérebro. Podemos dizer que muitos fenômenos mentais estão relacionados com o conceito de “valor”. Valores com sentimentos e emoções como os valores morais e religiosos. Neste texto eu faço uma introdução relacionando os valores religiosos, criados pela mente, através da influência do ambiente social da pessoa. Para mim alma e espiritualidade deveriam ser substituídos por influências desses valores religiosos, diferentes para cada povo, mostrando, inclusive, porque as religiões não são iguais entre si. 

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Um valor se forma quando uma ou mais informações, chegando à sua mente, são memorizadas e têm a capacidade de, quando estimulada por algum fato futuro qualquer, gerar um sentimento que o levará a agir. (1) É uma memória de emoção, em relação a algo material ou abstrato pelo qual nós seres humanos temos consideração, apreço, sentimento. 

Simples isto? Não! Por trás de uma frase dessa existe muita ciência, centenas de anos de pesquisas e descobrimentos, cientistas dando suas vidas pela verdade e nem sempre tendo sucesso. 

Quero esclarecer neste artigo algo sempre dito por mim, mas não explicado usando os conceitos acima: "a partir da infância uma criança terá os seus sentimentos 'canalizados' para as crenças nos valores religiosos passados pelos pais, amigos, parentes, a religião local, as escolas, etc., enfim, do meio ambiente social”. É o surgimento da fé. E por esses valores as pessoas se unem, fazem bem ao próximo, mas, também se matam! 

Como é possível existir comportamentos tão antagônicos? Não é tão simples responder, mas entra aí, em muitos casos, a intolerância com os valores das outras religiões, o fato de cada uma achar os seus valores absolutos, de serem verdades absolutas e competirem diretamente umas com as outras de forma muitas vezes desastrosa. No Brasil existe muita tolerância, reconhecida por outros países, mas lá fora é bem diferente. 

Em meu texto "O paradoxo dos gêmeos religiosos”, (2) digo da diferença de dois irmãos criados separadamente em meios sociais diversos onde as suas religiões são diferentes. Irão estranhar as crenças um do outro, os valores religiosos. Educados em culturas nas quais informações sobre valores religiosos recebidas não eram nada iguais, irão acreditar em valores muito diferentes, incompatíveis entre si. E aí poderão entrar em conflito se não houver tolerância. No texto falo: “...O brasileiro concorda com a relação de Pai e Filho entre Deus e Cristo e este veio ao mundo para nos salvar. A Bíblia é o seu livro sagrado no qual existem ensinamentos dos Dois. O muçulmano dirá sobre Cristo - e aqui já começa a briga – como um profeta em nível terreno e humano. Maomé é o verdadeiro messias, quem escreveu um livro sobre tudo da vontade do deus Alá para o povo na Terra. O livro é o Corão e nem queira o brasileiro dizer a ele do quão errado é esse livro sobre a nossa realidade nesse mundo!”. Ou o contrário! 

Receberam informações diferentes: memorizadas, possuíram a capacidade de gerarem ações diferentes ou, no mínimo, com muita incompatibilidade porque os sentimentos são diferentes. E nem preciso dizer o quanto os sentimentos são poderosos em nossas vidas.  Mas no primeiro parágrafo temos conceitos científicos relacionados com valor. São eles: informação, mente, memória e sentimento. Esses conceitos foram compreendidos pela neurociência como manifestações das atividades neurônicas em nosso cérebro descritas aqui: 

1 - Informação: os neurônios transmitem informações entre eles sendo as unidades básicas no cérebro, responsáveis por esse fenômeno. E esse fenômeno já é conhecido há muito tempo desde a década de, pasmem, 1890, quando o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) nomeou "a teoria do neurônio", a teoria da organização neural, com quatro princípios: 

1a. Existe uma célula, a qual ele chamou de neurônio, a unidade de sinalização elementar do sistema nervoso; 

2a. O prolongamento de um neurônio, o axônio (transmissão), se comunica com os dendritos (recepção) de outros neurônios em uma região chamada fenda sináptica. Mais tarde os cientistas descobriram a presença de substâncias químicas indispensáveis à transmissão de um impulso nervoso, um sinal, de um neurônio para outro, os neurotransmissores, se acumulando nessa região sináptica, vazia, necessária para esse fenômeno conhecido como sinapse; 

3a. Um neurônio se comunicará somente com células específicas e não com outras; 

4a. Dentro de um neurônio o sinal viaja somente em uma direção e sentido. Com isto é possível rastrear como o sinal se comunica com as outras células nervosas. Feito isso, Cajal, recebendo o Nobel de 1906 de fisiologia ou medicina, estabeleceu as bases do funcionamento cerebral em termos simples: o funcionamento dos neurônios. 

2 - Memória: existe uma base química para a memória descoberta pelo cientista americano Eric R. Kandel, Nobel de fisiologia ou medicina em 2000, brilhantemente explicado no livro "Em Busca da Memória". (3) Existe a memória de curto prazo e a memória de longo prazo, nas quais a primeira é um fortalecimento das sinapses com uma maior liberação de neurotransmissores. Já na segunda acontecem dois fenômenos: substâncias estimulando um gene do neurônio a produzir novos prolongamentos do axônio para haver mais sinapses, a neuroplasticidade, e também se aumentando a produção de neurotransmissores mais que na memória de curto prazo. Uma observação deve ser feita aqui: nas duas ocorrem interações de diversas substâncias químicas não sendo viável descrevê-las em um texto simples e pequeno como este. 

3 - Sentimento: sensação devido a estímulo (s) externo (s) ou interno (s) liberando neurotransmissores em neurônios de diversas áreas cerebrais em conjunto, ocorrendo ou não a liberação de hormônios e/ou neurotransmissores pelo nosso corpo. É bom salientar a nossa percepção de uma sensação ou um sentimento não só em nossos cérebros, mas também pelo corpo. Por exemplo, o alívio de uma angústia com o alívio de uma sensação ruim em nosso peito acompanhada do desaparecimento também de pensamentos negativos. Quando você está feliz, sua mente está equilibrada no sentido de pensamentos positivos acompanhados de uma ótima sensação pelo corpo devido às substâncias químicas nele liberadas. 

4 - Mente: estado produzido pelo funcionamento de várias regiões do cérebro. Cuidado com a palavra "estado"; ela se aplica a (quase) todos os ramos da ciência, mas é estudada de forma geral na teoria dos sistemas e em sistemas complexos. Uma definição para o leigo seria a de como o sistema, em nosso caso as várias regiões cerebrais, subsistemas do cérebro, estão produzindo a nossa mente, de como ele está no momento. Você está concentrado em uma tarefa? Está pensando em como realizar aquela viagem na próxima semana? Preocupado com o aluguel? Perceba: a mente é algo muito dinâmico porque enquanto você pensa em algo, seus olhos podem reparar um carro na rua enquanto seus ouvidos estão captando um barulho de uma reforma em um prédio ao seu lado. 

O eminente neurocientista português António R. Damásio diz em seu livro, "E o Cérebro Criou o Homem", (4) sobre o fato de a mente não ser produzida inteiramente no córtex cerebral. Ele é a porção mais recente do cérebro evolutivamente falando, responsável principalmente pela nossa lógica, o raciocínio lógico e é maior que nos outros animais em relação ao tamanho cerebral.  Damásio fala também do tronco cerebral, de suas duas divisões, o núcleo do trato solitário e o núcleo parabraquial, e o terceiro seria o colículo superior como produtores da mente. Ele é a maior autoridade mundial no assunto de sentimentos, emoções e consciência no momento, tendo escrito vários livros sobre estes assuntos. 

Veja os valores religiosos: informações chegam a uma criança, no próprio meio ambiente social, às dezenas, centenas, sempre, como fatos absolutos da religião local e, quando ela as memoriza e passa a senti-las, levando-a a uma ação ao receber um estímulo, mostra-se que estão definitivamente concretizadas em sua mente. Na verdade, os valores ficam com a criança como memórias de emoção. No decorrer da vida alguns poderão mudar ou não, podem se intensificar, etc.   Padres da igreja católica não casam; bispos evangélicos, cristãos como os padres, casam. Você coloca santos em sua sala, mas para outros cristãos isto é absolutamente inadmissível. Valores... Mulheres islâmicas escondem todo o corpo nas "burkas" enquanto no Brasil se mostra quase tudo do corpo. Valores... Islâmicos rezam em direção e sentido à cidade de Meca e os cristãos rezam em qualquer lugar. Hindus e xintoístas adoram muitos deuses e os cristãos a só um. Valores... 

Mas como, afinal, esses valores se formam em nossos cérebros? 

Dei explicações em parágrafos anteriores de como entender quatro fatos científicos, a informação, mente, memória e sentimento. Então como se forma um valor a partir destes fatos neurocientíficos?  Agora entra um conceito da teoria dos sistemas e da ciência da complexidade um tanto difícil de explicar ao leigo, o de propriedades emergentes. 

Dois ou mais fenômenos juntos produzem outro os quais, sozinhos os primeiros, não conseguiriam realizar. É como ver o novo fenômeno de um plano acima, olhando para aqueles embaixo formando-o.  Darei um exemplo simples: um próton possui características, propriedades como carga e massa. Carga positiva. O elétron possui carga negativa e uma massa muito menor comparada a do próton. O nêutron possui massa, quase igual ao do próton, mas sem carga. Agora imagine uma quantidade infindável deles em um recipiente. Talvez se comportem como um gás, mas, se eles, por algum motivo, se configurarem em átomos de hidrogênio, oxigênio, e produzirem água, terão novas propriedades físico-químicas diferentes das partículas e átomos em separado: escoamento, densidade, congelamento e vaporização em certos graus de temperatura, etc. A propriedade emergente - água com propriedades novas - só apareceu depois da reunião de maneira especial daqueles átomos. 

Então, quando eu disse as quatro primeiras palavras deste artigo, "um valor se forma", eu estava me referindo a isso, mas precisei explicar aqueles quatro fatos: informação, mente, memória e sentimento, para até chegar aqui. O valor pode ser considerado como uma propriedade emergente das interações físico-químicas, dos neurônios, em regiões específicas do cérebro. 

O valor, seja ele qual for, inclusive o religioso, não precisa de uma alma ou espírito, ou de um deus para existir. Digo deus em "d" minúsculo porque me refiro aos deuses de todas as seitas e religiões inventadas pelo ser humano. Afinal, matéria e energia comuns já estavam presentes em todas as formas de vida às quais, em algumas delas, chegaram até nós. 

Referências: 

1 - CASTRO, A. M. O. Sentindo e agindo - Um novo homem para um novo milênio. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 1999. 

2 – Argos Arruda Pinto. O paradoxo dos gêmeos religiosos. Disponível em: < http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/search?updated-min=2008-01-01T00:00:00-02:00&updated-max=2009-01-01T00:00:00-02:00&max-results=2 >. Acesso em: 27/09/2018. 

3 - KANDEL, Eric R. Em Busca da Memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. pp. 76-84. 

4 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 439 p. 

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