AFETIVIDADE

A afetividade está sempre ocorrendo no indivíduo. Todos os conteúdos da atividade consciente que são as vivências, possuem sempre um conteúdo afetivo. 

No entanto, mesmo naquelas vivências, praticamente sem significado afetivo como, por exemplo, na atividade exclusivamente cognitiva do raciocínio, existe um componente afetivo. A afetividade é, portanto, uma atividade.

Essa afirmação pode provocar estranheza pois, sendo a afetividade essencialmente passiva como poderíamos chamá-la de atividade?

Apesar de serem estados passivos, os estados afetivos não são estáticos, imutáveis, rígidos. Pelo contrário, eles são essencialmente dinâmicos e é neles que aparece a maior riqueza da vida mental, quer pela sua variabilidade, quer pela sua flexibilidade e possibilidades de transformação. Neste sentido, cabe perfeitamente designar a afetividade como uma atividade...

A natureza da afetividade é basicamente a de um estado significante que dá um significado especial --- o significado afetivo --- sobre as coisas e os acontecimentos vividos, isto é, sobre os conteúdos das vivências.  O estado significante é meu, o significado afetivo é meu, mas, se trata do significado sobre algo. Esse significado adjetiva as vivências e os objetos sem, contudo, fazer parte deles.

É um significado que se atrela ao objeto além da sua definição. Assim, por exemplo, quando eu encontro uma pessoa de quem eu gosto muito e que há tempos eu não via, eu sinto alegria. A vivência que eu tenho de encontrar essa pessoa se impregna de alegria. Mas, a imagem da pessoa, quem ela é, as suas características, nada têm a ver com a alegria. Trata-se de um significado que transcende ao objeto. E não é que eu quis sentir alegria ao ver a pessoa: eu apenas simplesmente sinto essa alegria!   Pode acontecer que, ao me despedir dessa mesma pessoa o afastamento dela me cause tristeza. Desta maneira, o mesmo objeto: "aquela pessoa" que me proporcionou alegria passa a implicar para mim numa vivência impregnada de tristeza. É o mesmo objeto, nada mudou nele, mas, o significado é radicalmente diverso...

O mesmo objeto, em dois momentos diferentes e próximos adquire um significado afetivo oposto sem deixar de ser exatamente o mesmo objeto. Não se trata, portanto, de um atributo ligado diretamente ao objeto, muito menos de um atributo do objeto ou derivado dele, mas, de uma qualidade minha (alegria) vivenciada sobre esse objeto -- qualidade essa que varia conforme o significado do momento vivencial em relação ao objeto. Assim é, fundamentalmente, a natureza da afetividade.

A afetividade, por ser uma qualidade vivenciada sobre o objeto a que ela se refere é um acontecimento estritamente mental, próprio do mundo interno que não tem relação alguma com qualquer objeto externo. Não se trata de uma qualidade derivada do objeto ou que parta dele, mas referente a ele. Ela é exclusivamente mental por ser uma parte das vivências e por não ser objetivável, isto é, não existe qualquer objeto do universo objetivo que possua algum atributo semelhante à afetividade. Não é possível, também, representar através de comportamento, mesmo com a mímica, um afeto. O que se consegue é representar apenas a vivência à qual se refere o afeto.

Assim, eu posso demonstrar que estou alegre, mas, não há como eu mostrar a alegria. É por este motivo que afirmamos que a afetividade é absolutamente subjetiva, exclusiva do mundo interno!

Ao falarmos da natureza da afetividade, falamos também da natureza dos afetos. Como vimos, os afetos são estados passivos do EU. Trata-se de uma qualidade vivencial do indivíduo em relação ao objeto, do tipo de estado em que ele está na vivência atual desse objeto. O objeto pode ser uma coisa, pessoa, situação, acontecimento externo ou algo relativo ao seu corpo --- o que chamamos de vivências externas --- ou mesmo um conteúdo ou acontecimento mental seu sobre o qual ele se reflete --- os quais denominamos de vivências internas. Seja qual for a natureza da vivência, ela sempre contém um afeto...

Os afetos são inerentes às vivências, não existe vivência sem afeto. Isto porque o indivíduo vive na vivência, daí o nome desta, e o significado que ele dá a ela é o significado afetivo do que ele vive naquele instante. Ao viver uma vivência, ele entra num estado que está intrinsecamente ligado a essa vivência, que é o estado em que ele vive aquela vivência, e esse estado é o afeto integrado a essa vivência. Esse estado é, portanto, uma qualidade vivencial e é, consequentemente, significado pelo que o indivíduo está vivendo naquele momento, o que quer dizer que o afeto é significado pela vivência. Como quem define o significado da vivência é o próprio indivíduo, ele, indiretamente, define também o tipo de afeto que terá com essa vivência... Emerge dele.Os afetos são qualificações das vivências e também qualificações sobre os objetos das vivências.

Os afetos são qualitativos isto é, são qualidades. E por estarem integrados às vivências eles são qualidades dessas vivências e, portanto, dão a elas uma qualificação afetiva, um significado de fundo que se agrega ao significado da vivência. Se se trata da vivência de um objeto, tal qualidade se torna uma qualificação sobre esse objeto, apesar de não se agregar ao objeto em si, mas à vivência dele.

No exemplo que citamos acima, a alegria ao encontrar uma pessoa querida que não víamos há tempo, o objeto é a pessoa, a vivência é o seu encontro, e a alegria é uma qualificação do encontro com essa pessoa, isto é, ela se agrega à vivência do encontro e se refere à essa pessoa. É evidente que a alegria não é uma qualidade que impomos à pessoa, mas, à vivência do encontro com ela, isto é, é referida a ela, mas não se torna uma qualidade dessa pessoa nem da imagem que temos dela.

A qualidade do afeto depende da natureza e do significado da vivência. A qualidade do afeto, isto é, o tipo de afeto que surge numa vivência é definido diretamente pelo significado da vivência. O que o indivíduo vive com a vivência é o significado que ele dá ao objeto dessa vivência. A natureza do objeto da vivência em si tem importância relativa. Ele só é importante porque, de algum modo, ele limita as possibilidades de significado que podemos dar a ele.

No exemplo que estamos utilizando, o encontro com aquela pessoa tem um significado que é limitado pela pessoa de quem se trata, pois, se fosse um desconhecido, ou alguém de quem não gostássemos, o significado do encontro seria diferente, isto é, a vivência do encontro daquela pessoa depende de que pessoa se trata, mas apenas em parte, pois depende também do que sentimos por essa pessoa naquele momento. Assim, mesmo sendo uma pessoa de quem gostamos muito, mas que estamos sempre juntos, o encontro terá um significado; no entanto, se essa for uma pessoa que faz tempo que não vemos, o significado será radicalmente diferente.

Como o que o indivíduo vive depende do significado da vivência, ao vivê-lo ele entra num estado diretamente derivado desse significado, e esse estado é o afeto, cuja natureza é, portanto, diretamente definida pelo significado da vivência.O significado da vivência inclui um significado valorativo e é essa qualificação valorativa que define a qualidade do afeto. Toda vivência tem um significado e esse significado inclui os juízos sobre o objeto da vivência, seja ela uma vivência externa ou interna. É, assim, um significado valorativo.

Os valores que damos ao objeto, e à vivência dele, configuram em especial a qualidade do significado do objeto e da vivência sobre ele. Essa qualidade da vivência do objeto é, portanto, valorativa, isto é, comprometida com o nosso juízo sobre o objeto da vivência e com a vivência mesma, sendo que este juízo é derivado do nosso contexto atual, que define o nosso momento e que influi no tipo de valores que demos ao objeto e à sua vivência, pois existe uma coerência intrínseca essencial nesse contexto. Isto porque, a cada momento, não estamos isentos, mas completamente envolvidos pela factualidade e pelo significado que lhe damos em nossa atualidade existencial.

Os afetos são qualificações vivenciais, o que significa que eles trazem implícito um significado de valor. É por este motivo que existem os juízos afetivos, que é um dos tipos qualitativos de juízo. Também como os outros tipos qualitativos de juízo, os afetos são bipolares, isto é, cada afeto apresenta um antípoda, um afeto de significado inverso ou oposto.

Com relação aos estímulos negativos, conforme o tipo de estímulo, o indivíduo pode apresentar um afastamento ou uma aproximação. Se tal estímulo representar objetivamente uma ameaça, o afastamento é chamado de fuga para livrar-se da ameaça, e a aproximação é denominada de enfrentamento para eliminar a ameaça.  

No conjunto alegria-tristeza é fácil localizar a alegria como o afeto prazeroso e tristeza como o afeto desprazeroso. Em todos os pares de afetos é possível identificar um e outro significado. Quanto mais diferenciados os afetos, principalmente, nos afetos espirituais, menos clara é essa identificação, mas, mesmo assim, ela é sempre possível.

Em geral, cada um dos afetos de cada par recebe um nome, como no caso de alegria-tristeza, mas nem todos têm nomes próprios. Muitos dos afetos são nominados, têm nomes próprios, mas o seu par não; este é, nesses casos, indicado por um prefixo negativo atrelado ao nome do outro. Assim, temos prazer-desprazer, segurança-insegurança, felicidade-infelicidade, etc.

Outros afetos devido aos seus marcantes significados, têm o seu par denominado de modo a identificá-lo como sendo o estado em que o primeiro não está presente: angústia-paz (ausência de angústia), medo-coragem (ausência de medo), ansiedade-calma (ausência de ansiedade), etc. A bipolaridade dos pares de afetos é o que permite esses tipos de nominações.

A polaridade dos afetos pode ser comparada aos polos de um ímã, onde existe um lado positivo e um negativo. A escala de intensidade de um afeto, como, por exemplo, mais alegria ou menos alegria, não é uma escala contínua com o seu contrário. Assim, de um máximo possível de alegria, existe uma escala decrescente de alegria até um mínimo possível de alegria. Neste ponto, não existe uma ultrapassagem para o estado de tristeza, que é o seu contrário.

Do outro lado também temos, de um máximo possível de tristeza, uma escala decrescente até um mínimo possível de tristeza, mas a tristeza e a alegria não se continuam: ou é uma ou é a outra. Nos afetos não existe uma passagem de um afeto para o seu oposto ou vice-versa, mas uma ausência daquele afeto, isto é, exatamente, no ponto médio de uma escala imaginária entre alegria e tristeza, não existe nada que possa ser referido a alegria ou tristeza; é um estado afetivo que nem é alegria nem tristeza é um outro afeto que nada tem a ver com os dois. 

Reinaldo Müller > "Reizinho"

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