Psicoterapias, neuroplasticidade e alterações na consciência

Neurocientistas procuram atualmente relacionar mudanças na consciência, para compreendê-la melhor, a partir dos efeitos da psicoterapia, avaliando alterações no cérebro, a neuroplasticidade. Se as psicoterapias promovem modificações na estrutura e/ou no funcionamento de áreas cerebrais, a consciência deverá ser alterada também.

A consciência, sendo um ou vários estados cerebrais ao mesmo tempo, interligados, possui uma base física na qual se assenta: o cérebro. E assim também é a mente na qual a consciência é uma “parte” dela.

Possuímos uma tendência a considerar a consciência como algo imaterial, sobrenatural e, sendo assim, algumas pessoas dizem que processos físico-químicos, ou biológicos se você preferir, não produzem algo imaterial. “Nunca vimos nada físico produzir um estado imaterial”, eles dizem. Mas as psicoterapias conseguem mexer fisicamente com o substrato neural e, consequentemente, alterando o comportamento de uma pessoa, havendo assim mudanças na consciência. Mesmo em um exemplo simples, como uma pancada na cabeça a fazer com que alguém desmaie, também houve uma alteração na consciência, um desligamento, mostrando que ondas de choque mecânicas atuaram em níveis neuronais, de impulsos nervosos, íons, influindo fortemente na consciência a ponto de desligá-la.

Em outro ponto, o cérebro imutável, estático, cedeu lugar a outro dinâmico, onde qualquer aprendizado só é possível graças à neuroplasticidade que apenas de algumas décadas para cá foi possível se perceber graças a instrumentos eletrônicos sofisticados. PET, SPECT, iFMRI são algumas siglas já conhecidas nesse campo.

A CBT (ou TCC) é uma das terapias mais poderosas nesse processo de avaliação de modificações na consciência, embora a psicoterapia psicodinâmica também produz resultados semelhantes apesar de suas abordagens diferentes. Talvez as duas funcionam pois dessa maneira porque buscam finais comuns. Mas a TCC é ainda preferida dos cientistas, mexendo com as emoções, sentimentos, comportamentos, etc., avaliando mudanças em que, por exemplo, uma área de sintoma como da cognição, é acompanhada por mudanças em outras áreas de sintomas como comportamentos e emoções.

Assim, analisando atividades cerebrais antes e depois da TCC em depressões, verificou-se modificações em áreas do sistema límbico, o córtex pré-frontal dorsolateral e áreas cinguladas. Algo até surpreendente pois poucas áreas do cérebro se alteraram e, com isso, alteraram a consciência. Poucas áreas mas importantes. Houve diminuição da atividade no sistema límbico, especialmente a amígdala, com o córtex pré-frontal dorsolateral tornando-se relativamente mais ativo.

A depressão produz modificações nos comportamentos dos indivíduos que vão desde uma tristeza onde sair, tirar férias, se desprender de preocupações do dia a dia, possam levar a um melhoramento de seus sintomas, com até modificações em que eles fiquem abatidos, sem forças para o trabalho, para continuarem com suas vidas sociais, e até permanecerem literalmente prostrados em suas camas.

Aqui eu abro um parênteses para um exemplo no qual eu mesmo fui o protagonista de uma depressão profunda onde, por três anos, mais ficava em minha cama do que de pé! Mesmo com um antidepressivo, a clomipramina, eu ficava deitado o dia inteiro e só tinha energias para me levantar, pasme, por volta das seis horas da tarde. Às vezes levantava ao meio-dia e ia resolver alguns compromissos. Dormia minhas sete a oito horas comuns de sono, me alimentava, tomava banho e até saía, mas muito triste.

Então posso dizer de uma mudança de consciência a qual fui submetido. Eu não falava para o médico sobre essa situação; eu não chegava a ele e dizia que o remédio e/ou a dosagem estavam errados; e não por que não queria e sim porque minha consciência não me permitia, onde eu havia perdido grande parte dela esquecendo da minha vida anterior, social, afetiva e de trabalho. Foi algo onde se mostra um dos lados mais nefastos da depressão: a pessoa sem consciência do que ocorre, podendo levá-la a comportamentos destrutivos.

Acabei por mudar de cidade e de médico. Foi-me receitado a fluoxetina - o prozac - e, em apenas oito dias, eu levantei da cama às sete horas da manhã, tomei um banho e saí. O que é a química cerebral…

Hoje estou muito bem e a fluoxetina possui uma ação muito bem conhecida: ela segura o chamado neurotransmissor transportador que não deixaria a serotonina realizar com eficácia as suas sinapses, levando-a de volta à membrana pré-sináptica. A famosa frase: “inibidor seletivo da recaptação da serotonina.”

Referência Bibliográfica

Daniel Collerton. Psychotherapy and brain plasticity. 2013. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3764373/ >. Acesso em: 11-11-2017.

Publicado
Visualizações
906